Respeite a arte! Ao reproduzir em outros lugares a obra de algum artista, cite o autor. Todas as poesias aqui presentes foram escritas por Mao Punk.

Visite também meu blog de textos: RESQUÍCIOS DEPRESSIVOS, SUJOS E NOJENTOS .
Textos que expõem a fragilidade e indecência humanas de forma irônica, metafórica e sem embelezamentos.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

ELEGIA AO ANO NOVO

O ano passou.
Os dias passaram.
A vida passou.
E todos os dias são a repetição
Do último dia do ano,
Pois termina o dia,
Pois termina a hora,
Pois termina o minuto,
Pois termina o segundo.
O último e o primeiro dia do ano
São as repetições dos demais dias.
Nada de novo, 
Nada diverso,
Nada de fato
Inovando o resto.

Quem se renova? Fico pensando,
Será preciso passar um ano
Para que haja alguma vida?
A vida passou.
E todos os dias são a repetição
Do desperdício de quem aguarda,
De quem desiste,
De quem festeja a festa triste
Que só ilude,
Que só engana.
No novo ano, 
À sua cama,
Será o mesmo corpo cansado
Que se deitou no ano passado.
E você diz "que neste ano..."

Mas neste ano ainda há fome,
E neste ano ainda há ídolos,
Ainda há o despertador às cinco da manhã,
Há o pão duro na cesta do café da manhã,
Há a pressa no passo e o descompasso,
Há cores que ninguém nomeou
E há estrelas na cidade ofuscadas pela iluminação.
Há, inclusive, a escada rolando,
A bola rolando, a cabeça rolando...
E um calendário satírico trazendo esperanças.

Portanto, é espanto que os fogos no céu
Não digam nada sobre os fogos da terra,
Os fogos que se apagam dos olhos,
Os fogos que disparam das armas,
Os fogos que matam por dentro e por fora,
Os fogos que se acendem do álcool,
Estes fogos que nos desmatam
(Oh, nossa natureza tão frágil)!

Dirão que tudo sorrirá,
Por que então já não sorrir?
Quem definiu a hora exata, o momento?
E quem sorriu durante os meses,
Será que tudo foi traçado
Por mais um risco no calendário?
É mais macio pensar assim,
Que amanhã será o dia.
Que à manhã seremos inteiros.
Hoje é cedo, mas o ano passou.
Os dias passaram.
A vida passou.
E passa. E passa. E passa. E passa...



domingo, 29 de dezembro de 2013

SE A SENSAÇÃO DISPENSASSE OS VERSOS

Se a sensação dispensasse os versos,
Ah, se o sonho dispensasse a dor!
Mas acontece que sou poeta,
Mas acontece que tenho amor.

Se minha vida me dispensasse
De tudo aquilo que me matou...
Mas acontece que a vida é feita
De toda morte que se acabou.

Se a natureza do que eu sinto
Fosse regada com água e só...
Mas acontece que o pranto rega
E o pranto vem do que se fez pó.

E se o poema fosse só pranto,
Por que poeta eu devia ser?
Mas acontece que a poesia
É o sorriso no padecer!


domingo, 22 de dezembro de 2013

ESSE TAL DE ROCK

Mas é que esse tal de rock
Já virou patifaria!
Esse traje descolado
Que se compra em galeria,
Essa gente desbocada
Que se faz de revoltada
Só pra fingir rebeldia.

Com suas músicas pesadas,
Com seus riffs virtuosos,
Acima de outras culturas,
Acima de outros povos,
Reproduzem preconceito,
Mas isso não é direito,
Ignoram mundos novos.

A causa mais importante
É o show que é da pesada,
E os muito, muito machos
vão "catar" a mulherada
Para auto-afirmação
Da sua pose de machão,
Mas de espertos não têm nada.

Cuidado ao andar na rua,
Cuidado com o que veste,
Camiseta do Airon Meide
Pode usar só quem conhece
Quantos discos eles têm,
Quais os RG's também,
Se não sabe, não se mete!

Os roqueiros endoidados
Não se importam com você,
Pois estão mais preocupados
Com CD's e DVD's
Que precisam adquirir,
Se preocupam em conseguir
Companhia pra beber.

Lógico que tudo isso
Não é lei universal.
Há roqueiro que é "do bem",
Há roqueiro que é "do mal",
Mas a quem ao mal é dado
Deixo aqui o meu recado:
We will rock your fuckin' law!


sábado, 21 de dezembro de 2013

SERÁ QUE É O TREM QUE PASSOU?*

Amor é um trem
Passando por diversas estações,
Carregando e descarregando
Pessoas que passam,
Que passam...

Embarque com cuidado,
Desembarque pelo lado esquerdo do peito.



*Titulo em alusão à canção "Estrada Nova" de Oswaldo Montenegro

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

DOS CONCEITOS

Acordara quase inerte pelo acaso.
Algo anunciara um exaustivo dia.
Na fadiga certa da tarde vazia,
Erguera-se o corpo a exibir descaso.

Erguera-se o corpo a exibir descaso,
E a cada passo que ele então fazia,
Era o triste mundo a vomitar azia,
Era o mundo triste um perdido caso!

Era o mundo triste um perdido caso...
Caberia ao mundo este conceito raso?
Dissertar a vida em si quem poderia?

E feito milagre a agraciar o arraso,
O mundo perdera seu conceito raso
Quando conseguira achar a Poesia!


domingo, 10 de novembro de 2013

O TOPO

Do topo caiu o cuspe.
Do branco topo choveu ofensas.
Do humano topo caiu o mundo
No abismo imundo de suas crenças.

Alguém no topo escutou um ruído. Parecia vir de lá de baixo. “Não é nada, voltemos a dormir.” E o ruído não parou. Nem um instante sequer. “Maldição! Parem com esse barulho inútil!” Ah, o sono era ameno! A cama macia, o lençol lavado! Lavado como? Esse cheiro, eu conheço? Essa cor de...

Do topo não se vê nada.
Do rico topo tudo é pequeno.
Do alto topo não se vê gente,
Tudo é contente, tudo é ameno!

Amanheceu o dia, mas ainda era madrugada. Chovia, como sempre. Mas com a chuva matava-se, ingenuamente, a sede. A chuva construía a base. Pilar tempestuoso.  E o guarda-chuva enferrujado nem sequer salvava o corpo. E para quê? Parecia tudo tão normal. Parecia. Mas ao lado, ruas lavadas de vermelho. Mas ao lado alguém gritava, alguém gritava, alguém gritava...

Do topo só existe o topo,
Do altivo topo não há mais nada.
Do ímpar topo cerra-se a vista,
Nem sequer pista de outra estrada.

Adeus quem é daí. Adeus quem é de cá. Adeus quem não é de nossa estirpe. Já é hora de abrirmos mão de irrelevâncias, amores, afinidades. É hora de aceitarmos essa linhagem, essa linhagem que vem de cima, essa linhagem que não é nossa, mas que há de ser. Que não conforta, mas há de ser. Que não nos salva, mas há de ser. Alguém sabe o que está fazendo, há de saber! E bem o sabe! E nós, o que sabemos? E eles? Eu já não sei.

Do topo dita-se o dia,
Do fino topo dita-se a vida.
E quando olho para este topo
Penso ser hora de dar partida.


terça-feira, 5 de novembro de 2013

O PORTO SEGURO

Eu não tenho um porto seguro
(Ao menos sem ser literário).
Por onde ando não sei se há chão;
E se há chão, não sei se é falso.

Talvez porque não haja no mundo um caminho correto.
Ou talvez todos os caminhos mais certos
Levem ao mesmo piso falso onde hei de afundar.

Afundarei em lanças firmadas ao fundo
Ou a flores perfumadas de cores vivas?
Quiçá fosse a prévia de um enterro comum...
Ou seria o conforto de um funeral merecido?

Mas antes disso, antes do descanso,
Enquanto a alma não está presente apenas
Em poesias – que talvez (e muito provavelmente)
Fiquem esquecidas, ignoradas, subtraídas,
Remetidas ao silêncio do tempo –;

Enquanto o corpo pena e sentir pena é esmola inútil;
Enquanto há olhos não comidos, peito não decomposto,
Pele que quase não serve de alimento;
Enquanto estas pernas e pés se debatem,
Não há descanso.

Não há sequer um porto seguro que não seja literário.
Mas há, pelo caminho, outras flores curiosas;
Há a brisa que muda de direção;
Há estrelas e há até mesmo risos verdadeiros;
Eu juro que cheguei a ver o que seria a Perfeição.
Seria, não fosse o fato de que ela não existe.
Ou quase não existe. E por isso quase a vejo.

E essas flores, essa brisa, essas estrelas,
Esses risos e a quase-Perfeição são versos,
São poesias escritas pela mão do acaso,
São vivências literárias, prévias do que se escreve.

Antes do descanso, hei de caminhar com minhas asas
Por este extenso porto seguro literário.



domingo, 3 de novembro de 2013

LAÇO*

Nós, as flores,
Os céus
E as mãos entrelaçadas
Feito nós, feito flores,
Feito céus.



* Poesia escrita em conjunto com Inaiara Gonçalves
http://www.piipoca.blogspot.com.br/


sexta-feira, 1 de novembro de 2013

A MINHA CONFISSÃO DEIXO VERSADA

A minha confissão deixo versada
E nem precisaria tanto esmero.
Nos olhos te diria o que mais quero;
Nos lábios a vontade confessada.

Assim, com a poesia despertada,
Eu sigo a confissão do que espero:
Nos olhos te diria o que mais quero;
Nos lábios a vontade confessada.

Se a poesia fosse declamada
Além da voz, além do verso mero,
Nos olhos te diria o que mais quero,
Nos lábios a vontade confessada.

Mas só tenho estes versos e a estrada.
Se teu desejo me surgisse ao certo,
Nos olhos, os teus olhos mais de perto; 
Nos lábios a vontade saciada!


quarta-feira, 30 de outubro de 2013

RECADO À MADRUGADA

A Madrugada veio me falar:
"Vá dormir, poeta!
Escrever não cura carência!"

Mais decência, Madrugada!
Um dia te verso só pra dizer
Que eu estava carente
E dormi com você.


terça-feira, 29 de outubro de 2013

A VONTADE É COMO UM FILHO QUE SE CRIA PARA O MUNDO

Criei a vontade
Que agora me tem.
Devia ser minha
E de mais ninguém.

Mas não é só minha
A vontade que atrela,
Porque a vontade
Que tenho é dela.



segunda-feira, 28 de outubro de 2013

EMARANHADO

Emaranhado estive
Ao frio, a mim, a nós:
Aos nós que fiz nos fios
Nos fios dos caracóis.

Emaranhava os fios,
Calava minha voz.
A paz e eu calados,
Mão a falar por nós.

Falando pelo toque,
Dizendo que entre nós
Há fios que nos conduzem 
A emaranharmo-nos.


sábado, 26 de outubro de 2013

SONETO DAS DORES

Afasta-te da dor, imploro agora,
Que a dor é minha e tu não cabes cá!
Qualquer proximidade a se tentar
Será mais dor surgindo sem demora.

A mim basta este aperto que aflora,
Basta o cansaço de tudo o que há,
Basta a existência vã a se firmar
E toda esta aflição que aqui vigora.

Afasta-te! Faze isto nesta hora,
Um bom conselho nunca se ignora.
Afasta-te que assim tens a ganhar.

Mas de que vale a súplica, por ora,
Se a solidão em si nos apavora? 
... E assim as dores vêm a se somar.


sexta-feira, 25 de outubro de 2013

SE POESIA LEVASSE A ALGUM LUGAR

Se Poesia levasse a algum lugar,
Eu já conheceria o mundo inteiro.
Mas Poesia não faz isso, não!
Ela não nos leva a lugar nenhum!
Ela é quem traz o além até nós.


terça-feira, 22 de outubro de 2013

VERSOS JOGADOS COMO SEMENTES

Plantei poesia.
Reguei com riso e dor.
Primeiro galhinho que saiu
Foi de esperança.

Continuei a regar
Com água dos olhos
E com saliva que aparece
Quando dá gosto em algo.

Outros galhinhos saíram.
E já vi sementes também!
E continuei a regar.
Até usei adubo do bom,

Aquele adubo
De quando a vida está uma merda.
E a poesia foi florescendo,
Florescendo, florescendo...

E para quem dou as flores no fim?
Deixo no jardim que está em mim.

Se eu quiser, só se eu quiser,
Arranco algum ramo
Que tenha algum tanto
De semente de mim. E então
Se alguém quiser, só se quiser,
Regará este algo qualquer.

Quem sabe eu floresça em alguém,
Quem sabe essa flor a nascer
Seja o jardim que alguém sonhou ter...



domingo, 20 de outubro de 2013

SONETO SIMPLES

Quero amar da forma mais desesperada,
Suspirar como quem perde o ar que resta,
Quero me perder por entre estreitas frestas
De meu coração, das quais farei estrada.

Pois que em meu caminho haja mil ciladas!
Hei de transformar cada armadilha em festa,
Já que a Poesia a cada dor atesta.
Eis que toda dor assim será versada.

E de forma quase que inesperada,
Tudo um dia finda. Antes de acabada,
Toda sensação que passa tão depressa

Há de ser melhor se intensificada,
Pois somente assim será aproveitada!
O inverso é morte e vida já não presta.



terça-feira, 8 de outubro de 2013

O SOPRO

O sopro que trago no peito
Não sei se é doença
Ou defeiTUM TU Sss...

Talvez seja a poesia
Cochichando versos
Para o coração;

Ou é o coração suspirando,
Poetizando
O que um dia acabará

Para que seja eterno
O que não dura
Para sempre.

O sopro que trago no peito
Doutor aconselhou
Que eu verifique.

Mas diga, doutor:
Há cura para a poesia?
Que não haja jamaiSss!


sábado, 5 de outubro de 2013

FILOSOFIA SOBRE O AMOR EM FORMA DE POESIA

Penso em rever meu conceito sobre o Amor,
Talvez porque o Amor não tenha conceito.
Pude estar errado o tempo inteiro sobre o Amor,
Talvez porque o Amor nunca está errado.

O errado sou eu, que criei conceitos.
O errado sou eu, que não admito que o Amor
– Ah, o Amor! –,  o Amor é mais livre que eu!
E sou tão tolo que não percebi, ao redor,
O Amor sempre por lá, por aqui, por aí...

Se a poesia que vivo é o Amor que reconheço,
Tudo que fiz de mais profundo era Amor!
Sempre dei Amor em tudo o que pude.

E quando cartas não entregues se calam,
Nas gavetas, nos cadernos, entre folhas,
Então estou calando o Amor próprio,
Já que a escrita é um sentimento íntimo.
Estou calando o Amor que vem de mim,
Estou calando uma carta de Amor!

Amor para quem? Para outrem? Para mim?
Nada importa! Nada disso interessa,
Pois é somente o Amor quem decide
A grandiosidade de si mesmo.


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

INESGOTÁVEL

Deixar uma parte de si
Em cada coisa feita
Seria esgotar-se um dia;

Mas sinto-me mais completo
Se deixo uma parte minha
Nas linhas da poesia.


terça-feira, 1 de outubro de 2013

EM TEUS OLHOS CARIDADE ou PARA SE LER EM TEUS OLHOS

E se eu lhe dissesse
Que nos olhos teus
Cabem mais poemas
Que nos versos meus?
Cabem mais sorrisos
Que nos próprios risos
Em teus olhos vivos,
Nestes vivos céus!

E se eu lhe pedisse,
Como quem sofreu,
Caridosa ajuda
Destes olhos teus?
Nota-me nos versos,
Neste simples gesto
De me olhar de perto
Pelos versos meus.

Porque nos teus olhos
O que feneceu
Ganharia a vida
Que já se perdeu.
E conseguiria
Tanta poesia!
E assim viveria
O que jamais viveu.

Pois estes teus olhos
Findariam o breu,
Este breu que existe
Nestes olhos meus.
Breu que escurece,
Que a vista anoitece,
Pois o olhar carece
Destes olhos teus!



domingo, 29 de setembro de 2013

ANTES DO FIM

A-
mor!
Antes
que
seja
a
mor-
te.

sábado, 14 de setembro de 2013

VERSOS RESTANTES

O que sobra de mim
No fim?

Nem a sobra de mim
Me resta!

O que resta de mim
Não presta

Se o que presta de mim
Se foi.

E o que fica de mim
Não sabe

Se a parte de mim
Que sobra

Fica dentro de mim
Ou vive

Neste resto do que é
Você.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

DO QUE SEREI

Meu hoje é tão eterno que posso senti-lo em cada parte do que serei.


segunda-feira, 9 de setembro de 2013

DESENLACE

O toque das mãos se desfez. Era o fim.
O tempo passou como havia de ser.
Não restou sorriso para aparecer;
Não caiu um pranto, sequer algo assim.

Apenas calou-se o que antes gritou,
Aos poucos morreu o que antes viveu.
E fez-se tão nítido o que se doeu:
Outrora carinho que já acalentou.

Agora afrouxou o enlace das mãos,
Aquelas que unidas em tal comunhão
Nem mesmo a enorme distância rompeu.

Mas algo mudou quando o tempo passou
E as mãos que a distância nunca separou
Agora se soltam para dar adeus.



terça-feira, 3 de setembro de 2013

POECICLO

Repito-me,
Ciclo-me,
Sinto-me
Em tudo que faço.
Retorno-me,
Torno-me
Incólume,
Desembaraço.
Se acaso
O compasso
Desanda-me,
Arranjo espaço:
Infindo-me,
Verso-me,
Sou-me
Como bem acho.


quarta-feira, 28 de agosto de 2013

SE EU FOR DIZER SOBRE O AMOR QUE ACABA...

Já perdi em vinte e cinco anos
Muito mais do que eu gostaria.
Desde o riso que na infância havia
À presença de quem nós gostamos.

Nenhum riso estava nos meus planos,
Mas jamais eu imaginaria
Quantos mil sorrisos sorriria,
Quantos outros foram desenganos.

Mas sorri! Bons risos nós levamos.
E de tudo o que vivenciamos,
Tudo finda como findaria!

Mas amor acaba? Tolo engano!
Se findar o que de amor chamamos,
Nunca foi amor, jamais seria!


domingo, 18 de agosto de 2013

SE A PAIXÃO É ALGO QUE NOS É NEGADO...

Se a paixão é algo que nos é negado,
Será proibido, então, sentir por dentro
Esta sensação de que se queima o peito
Ao se respirar, assim, desavisado?

Ninguém avisara sobre este pecado,
Mas se enfim soubesse, inda teria feito
O meu coração, sem meu consentimento,
O que bem fizera ao ter me descuidado!

Se tudo que sinto a ti parece errado,
Culpa-me, transforma-me em desdenhado,
Faze o que quiseres se te dou tormento!

Mas nada proíba a mim – nem mesmo o fado –
De sentir-me assim, eterno apaixonado,
Pois nada é a culpa frente ao sentimento.


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

SONETO PARA GRAZIELLE*

Quem chegara perto por certo notara
Um fervor de alma, um quê desconhecido,
A anunciação de que outro sentido
Tivera surgido qual proeza rara.

Nessa ocasião, a nuvem que passara
Resolvera abrir, saudando o ocorrido;
O jardim jamais esteve mais florido,
A escuridão tornava-se mais clara.

Quem chegara perto por certo notara
Uma grande força a qual não se equipara
Nada que pudesse ser reconhecido.

Eis que a poesia ali anunciara
Que surgira aquela que nos é tão cara!
Era Grazielle que tinha nascido.


* Soneto entregue no aniversário de Grazielle. LUTO. Esteja em paz, Grazy...



quarta-feira, 31 de julho de 2013

RISOS SEM CONVITE

Que o humor se mantenha!
Que saibamos que risos, como os que damos à toa,
Surgem sem convite,
Aparecem ao longo da festa chamada vida.

A vida às vezes é uma festa na qual não parecemos convidados.
Mas os risos sabem como se infiltrar.
E no final das contas,
Estamos dentro da festa esperando esses penetras surgirem.
E eles surgem. No melhor da festa eles surgem!

sábado, 27 de julho de 2013

POESIA PARA COLHER COMO FLOR

Olhe a poesia!
Colha como queira!
Pode ser tão sua,
Verso que se cheira!

Colha a poesia,
Quase a fiz só sua!
Mas a flor do verso
A todos perfuma.

Se esta flor de versos
Rimar com sua calma,
É tão sua a flor,
É tão flor minh’alma!



terça-feira, 23 de julho de 2013

PONTO DE CONCENTRAÇÃO

Destes versos, pensamento:
Poesia boa a minha!
Carregando sentimentos
Sem dizê-los numa linha!


quinta-feira, 18 de julho de 2013

SONETO DA NOITE CLARA*

Eu olhara acima. Onde o firmamento?
Lá achara a Lua sem o céu. Pensara:
“Como pode a Lua, em sua beleza rara,
Surgir sem o céu? Tamanho atrevimento!”

Começara a busca no mesmo momento:
Por detrás de estrelas nada encontrara,
Dentre uma nuvem que se dispersara
Nada encontrara que não fosse vento.

Mas havia em mim algum pressentimento:
Tal anoitecer jamais seria isento
De um céu presente. Logo eu o achara!

Eu seguira um brilho e neste movimento
Descobrira o céu, fugira o desalento:
Encontrara os olhos teus, a noite clara!



* 1º Lugar no Prêmio Emílio Lansac Toha,
XXI Concurso de Poesia e Prosa da Academia de Letras de São João da Boa Vista - Categoria: Poesia/Adulto

terça-feira, 16 de julho de 2013

POESIA DO ABISMO

O que tu avistas à beira do abismo?
Tu vês precipício no próximo passo
Ou vês, no horizonte, o voo do pássaro
Rumando certeiro a um novo destino?

Do alto, tua vista alcança que polo?
O céu adornado de nuvens e cores
Ou olhas p’ra baixo com mil dissabores
Esperando as dores da queda no solo?

À beira do abismo teu passo é destino,
A sorte da vida é o vão no caminho.
O que tu avistas? Qual rumo tomar?

Conforme a visão que tu dás ao dilema,
Teu passo será como queda certeira
Ou será teu corpo a voar... a voar!


quinta-feira, 11 de julho de 2013

GREVE DE FOME

Paixão também morre de fome
E a minha declara greve.
Fecho a boca para teu doce
                                           ... encanto,
Pois tua língua nunca me alimentou.

Bulimicamente vomito versos,
Todo gosto que colocaste alma a dentro.
Alimentaste a paixão com anseios
Que hoje são versos colocados para fora.
E para fora, Amor, são fluentes.

O que não mata engorda.
Oh, paixão magra! Oh, robusta poesia!



domingo, 30 de junho de 2013

UM VERSO NO MEIO DO CAMINHO

Vê se pode:
Botaram verso no caminho do poeta

(Vocês devem saber que o poeta nem sempre escreve versos,
Apenas coleta os versos que encontra pelo caminho,
Escondidos por entre casas, caos, cacos e coisas),

Quase que tropeça, coitado!
Mas ao invés disso, sentiu em seus passos essa parte de poema,
Pegou o que encontrou,
Juntou com outros versos que estavam no bolso,
Mais outros que estavam em mãos e

Caso resolvido!

Poeta não tropeça, faz obra!

segunda-feira, 24 de junho de 2013

PRETENSIOSAMENTE POETA

Nas primeiras vezes que me chamaram de poeta
Contive meu sorriso.
Pequei.
Prendi por detrás dos lábios mais uma poesia.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

SONETO DE REVOLUÇÃO

Levanta-te, povo! Mas não a bandeira!
A causa do povo não cabe em um pano.
No canto do hino há grito tirano,
No verde-amarelo há dor sorrateira.

Levanta-te, povo! Quebrando a fronteira!
Sem pátria, sem mestres, sem líder, sem amos.
O punho cerrado, os gritos que damos,
Farão estes panos virarem fogueira!

Levanta-te, glória! Não mais prisioneira!
A causa do povo é a causa primeira,
A ordem burguesa não reconheçamos!

E quando surgir a revolta certeira,
Por cada esperança que o povo semeia,
Haverá de ser Primavera onde estamos.

CRÔNICA DO PRANTO DELA e PALAVRAS CALADAS QUE AGORA SÃO NOSSAS

Não pude entregar os versos a ela.
Ela chorava. E não pude entregar os versos a ela.
Não consegui romper o pranto com a poesia.
E por não o fazer, no meu peito também
Há um pranto desconsolado, frustrado.
Ah, se ela soubesse que havia verso!
Ah, se ela soubesse que seu pranto é o meu!

Apenas a vi sem querer. E a vi chorar.
Decerto que nunca mais, em momento algum,
Tornarei a vê-la. Mas o pranto dela é meu pranto
E sua dor é a dor que ela deixou em mim.
Sua dor é todo verso que escrevo.
Sua dor é a poesia que tenho comigo.

Não pude entregar os versos a ela,
Mas eu os escrevi. E não posso, por nada,
Deixá-los morrer. Alguém os necessita!
Portanto exponho aqui nossas dores,
Exponho nós dois, como um, nestes versos
Que eram tão dela, tão eu, tão nós...
E agora são todos, são versos de todos!

Palavras Caladas Que Agora São Nossas:

“Não há pranto que não regue!
Este sal que cai do rosto
Nutrirá, com novo gosto,
O sorriso que prossegue.”

terça-feira, 11 de junho de 2013

sábado, 8 de junho de 2013

sábado, 1 de junho de 2013

DESUSO

Deixarei fora de mim tudo aquilo em desuso:
Ideias, pensamentos, pessoas, sentimentos...
Não serei escravo das construções erradas que fiz.
Não sou arquiteto para me arruinar com o que desabou. Sou poeta!

Não sou sequer relevância em qualquer coisa.
Sou apenas este instante que já não é mais. Passou.
E agora ainda é outro. E já foi. E assim se vai. Ou vou.
O que importa, afinal? "Afinal". Remetendo à ideia de fim.
Que fim vale a pena o desgaste do agora?
O resgate do agora perdido por nada?!
Não mais! Que o mais é excesso de tempo no tempo.

Deixarei fora de mim tudo aquilo em desuso:
Versos velhos, papéis velhos, meu velho humor envelhecido...
Fora de mim, pois o jardim da vida é infinito!
Se a velharia for flor, colherei quando me convier.

Ademais, não sou mais que o segundo que passa,
Que o ar sujo que passa, que a vida que passa...
Não sou mais que alguém que passa sem vida,
Sem carregar em si qualquer projeto de existência.
A diferença está no entendimento de que passo.
Eles que passem sem saber, sem sentir, sem viver!

Não sou filósofo, não sou psicólogo, não sou médico.
Sou poeta. E deixo tudo o que não for rimar em desuso.
Deixarei fora de mim tudo aquilo que não abrigar meus versos,
Meus versos imediatos, meus versos desesperados, meus versos!

Adeus, oh, restos!
Adeus, ideias! Adeus, pensamentos! Adeus, pessoas! Adeus, sentimentos!
Não serei escravo dos problemas tardios, vadios, passados...
Não sou historiador para estudar minha história. Sou poeta!
E um poeta nunca aprende. Jamais!



sexta-feira, 31 de maio de 2013

SONETO A ELA

Um medo que não fere atinge o peito,
Sorriso ao medo surge acompanhado.
Sem nada resistir, sou apanhado.
À sorte da incerteza estou sujeito.

Qual fosse mais vital, menos defeito,
Aquilo que é incerto é declarado,
Assim como o que é certo está negado
E o mistério é dado por direito.

Mas eu sorri! A causa deste efeito,
Na linha entre o perfeito e o imperfeito,
Faz deste medo assombro contemplado.

Pois tu surgiste viva! E neste feito
Deixaste, além do medo e deste preito,
Um coração poético encantado.


quarta-feira, 29 de maio de 2013

FARTURA

Que falte a água que mata a sede,
Que falte à fome qualquer comida,
Mas não me falte, jamais me falte,
A poesia de cada dia!


Sem título, maio de 2013

Deitar sobre o verso,
Acordar sob a poesia.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

O OMBRO DA LITERATURA

A Poesia me rendeu lembranças,
Rendeu-me o pranto antes sufocado,
Rendeu-me o lenço bordado de letras,
Rendeu-me o ombro da literatura.

A Poesia me rendeu a vida!
Rendeu-me morte seguida de morte,
Rendeu-me as vidas, infinitas vidas,
Que se seguiram quanto mais morria!

A Poesia me rendeu recanto,
Também abismo para minhas dores,
Também a cela de minhas prisões
E a liberdade de quebrar correntes.

A Poesia não se cala nunca!
Ouça c'os olhos este grito alto!

A Poesia me rendeu sorrisos,
Rendeu-me as asas que tenho na mente,
Rendeu-me o colo quando fui perdido,
Rendeu-me a paz presente em desesperos.

A Poesia me rendeu loucuras,
Rendeu-me a perda de qualquer juízo,
Rendeu-me a calma do que foi preciso,
Rendeu-me o mundo que existe em mim.

A Poesia me rendeu carinho,
Rendeu-me o amor de fato verdadeiro,
Rendeu-me o olhar além do mundo sujo,
Rendeu-me a própria Poesia viva!

A Poesia me rendeu p'ra sempre
E para sempre eu me rendi a ela!

sexta-feira, 17 de maio de 2013

SONETO DO SORRISO ILUSTRE

Como alguém que orna a branca folha nua
E da virgem cor faz arte concebida,
Tu trouxeste alento à mente adoecida
Ao me colorir co'a fina arte tua!

Desenhaste um traço, raio de candura,
Na imensidão do vão destas feridas.
Encheste de belas luzes coloridas
Onde outrora havia apenas sombra escura.

Como pode haver em mim esta fissura
Que me tira o senso, o siso, a compostura,
Se tu inda és p'ra mim desconhecida?

É que desenhaste em mim alguma cura,
Tal que o pensamento, quando te procura,
Encontra nos lábios um sinal de vida.



quinta-feira, 9 de maio de 2013

POESIA NOJENTA

Na louça brilhando,
Na água, boiando,
Deixei uma parte de mim.

Em meio ao cagaço,
Caindo aos pedaços,
Deixei uma parte de mim.

Liberto das regras,
Saindo das pregas,
Deixei um pedaço de mim.

Sem nenhum apego,
Caindo do rego,
Deixei uma parte de mim.

Que bom que seria
Se, por ironia,
A vida também fosse assim:

A cada pedaço
Em que me desfaço,
Mais leve eu ficasse no fim!

terça-feira, 23 de abril de 2013

LOCAL

Toda ideia do que mais desejo está em mim. Então por que me sentir deslocado se sou meu próprio espaço, cheio de coisas que mais quero?

Tudo o que mais desejo, por assim dizer, sou eu. Sou eu, pois sou a ideia que carrego. E carrego anseios. Sou os anseios transbordando em mim mesmo.

Sou o anseio de mim mesmo em um espaço que é meu. E é meu por eu ser esse próprio espaço.

Sou eu a totalidade à parte do resto. Sou a poesia que espero. Estou me esperando já estando aqui.

E lá fora tudo é cinza. Mas lá fora não sou eu.

Descobrir-me-ei a mais.


quarta-feira, 17 de abril de 2013

terça-feira, 16 de abril de 2013

INDEFINIDO

Um bem gostar que não se sabe como
E nem se explica, mesmo tendo causa,
Que pede fogo quando o peito abrasa
E chora água quando aviva o fogo.

Se mais sentido, menos faz sentido;
E quanto mais se sente, mais se cresce;
E dá mais vida enquanto se padece,
Mais aparece quanto mais perdido.

Perdidamente, enfim, é como vivo,
Que já não sei versar um só motivo
Da causa justa que injustamente

Toma-me o peito, mesmo já preenchido.
Hei de viver, assim, indefinido,
Porque te amo, Amor, perdidamente!


domingo, 14 de abril de 2013

quarta-feira, 10 de abril de 2013

PERDÃO OU CASTIGO

Há tempos que não verso como deveria.
Perdoa, Poesia! Perdoa, Poesia!

Não vejo a beleza que eu poderia.
Perdoa, Poesia! Perdoa, Poesia!

O mundo mundano mandando no dia.
Perdoa, Poesia! Perdoa, Poesia!

Perdoa ou castiga-me de forma fria:
Com verso, Poesia, de dor e agonia.



sábado, 6 de abril de 2013

O GRITO


A poesia GRITOU! – TOU! TUM! –
Fez um eco-o-o-o...
                            Um treco estranho!

Tamanho foi o susto do sujeito
Que, dentro do peito, a batida que fez

Fundiu-se de vez
À poesia que GRI – TUM! TUM! – TOU-ou-ou-ou...


terça-feira, 2 de abril de 2013

POEMA DE AMOR

Há quem dê amor no toque,
Há quem dê amor no beijo,
Há quem dê amor na troca
Entre dois (ou mais) desejos.

Minha boca beija o nada
E meu tato toca o vento,
Minha troca se baseia
Em trocar de dor no peito.

Mas amor também me toma,
De amor também sou feito!
E o amor que em mim aflora
Posso dar de outro jeito.

sexta-feira, 29 de março de 2013

SEM ESCOLHA

Fosse escolha ser poeta,
Isso eu não seria, não!
Não aceito que o poeta
Seja assim por opção.

Ser poeta por escolha?
Que tamanha aberração!
Não se escolhe ser poeta,
Ser poeta é condição!



quarta-feira, 27 de março de 2013

POESIA INERTE

A
     I    N    É    R CIA
                                    age;
E o  poeta interage.

segunda-feira, 25 de março de 2013

ROMANCE URBANO DE DEZ MINUTOS EM LINGUAGEM POPULAR

Depois de tudo
O que vivemos,
Esse adeus
Sem mais nem menos!

O que vivemos,
Todo o romance,
Foi poesia
De dois amantes.

E então o adeus
De desenganos
Pouco depois
Que nos olhamos.

Rápido assim!
Pois essa história
Aconteceu
Na trajetória

Dessas pessoas
Num fim de tarde.
Foi no metrô
Desta cidade.

A estação
Era lotada,
A plataforma
Congestionada.

Foi nessa cena
Que nos olhamos
E o romance
Nós começamos.

E nesse encontro
De nosso olhar
O trem chegava
Para findar

Essa história.
Na ocasião
Nós dois entramos
Num só vagão.

Mas logo veio
A despedida.
Desci do trem,
Foi a partida.

E nunca mais
- triste mazela -
Eu viverei
Dos olhos dela.

Depois de tudo
O que vivemos,
Esse adeus
Sem mais nem menos!

sexta-feira, 15 de março de 2013

ESPELHO DA ANGÚSTIA

Aos amargurados como eu escrevo,
A quem desconhece a boa-venturança,
A quem já não acha em si a esperança
E não vê em si senão o desespero.

Que será de nós? Quem sorrirá primeiro?
Já não há em mim sequer a confiança!
Veio a tempestade, mas nunca a bonança!
E em seu lugar o incômodo certeiro.

A quem como eu doou-se por inteiro,
Mas não encontrou sorriso verdadeiro,
Sendo alvo das pedras que a vida lança,

Deixo meu poema sem nenhum conselho,
Pois é natural que o verso seja espelho
Desta angústia fria que nunca descansa!


terça-feira, 12 de março de 2013

COISA DE POETA

Coisa de poeta
Andar à busca da busca,
Olhar para o nada e para tudo,
Temer, encarar, suspirar,
Rabiscar qualquer coisa sem forma,
Sem motivo aparente
(Mas como poeta, bem sei que já existe motivo o bastante em escrever sem motivo).

Coisa de poeta
Achar que certas coisas de poeta parecem até fugir do que é poesia.
Mas o que é poesia senão exatamente essas coisas?

Coisa de poeta
Fazer da lembrança verso e pavor...
Acho que é isso.
E se assim for,
Hoje sou o melhor poeta do mundo!

segunda-feira, 11 de março de 2013

DA ESPERA PELO ALÍVIO DA MORTE OU QUALQUER SENSAÇÃO SEMELHANTE

Sinto que morrerei em breve.
Não literalmente, mas morrerei.
Talvez por ora seja só o medo.
Nunca sabemos o quanto podemos sofrer na morte
Até que a morte desponte.
O primeiro a morrer é o próprio medo.
O medo morre antes de nós.
Assim, consolados de que o fim é inevitável,
Não há mais morte qualquer que doa.

Sinto que morrerei em breve,
Como tantas outras vezes já morri.
E não haverá flor, dor ou festa,
Nem caixão, nem terra, nem confete.
Será a morte pura. Será o fim e ponto.
E do ponto despontará qualquer coisa,
Qualquer resto de existência,
Qualquer semente de qualquer natureza
Que um dia morrerá também.

domingo, 10 de março de 2013

TOTALIDADE

Chegará o dia
Em que nada chegará.
E nesse dia,
Sem nada esperar,
O dia será vivido.

sábado, 9 de março de 2013

SONETO DAS MORTES

Eu morri mais vezes do que deveria,
Já desperdicei de mim muito sentido
E nenhum sorriso que tenha sorrido
Fez valer as horas em que eu morria.

Todas estas vidas que assim perdia
Hoje preferia não as ter perdido,
Preferia nunca ter me iludido,
Evitar as mortes qu'eu próprio traria.

Mas trouxera a morte! A morte aparecia
Como se ela fosse o próprio dia-a-dia,
Quantas cem mil vezes me fiz falecido!

Mas ao lamentar as dores que sofria,
Surpreendentemente, aqui descobriria:
Outra vez morri! De novo fui vencido!


quarta-feira, 6 de março de 2013

MORTALHAS

Quando eu morrer,
Que cuspam em meu caixão,
Escarrem em cada fração
Do monstro que jaz ali.

Se merecer,
Que deixem depois a flor
E cubram com todo o amor
O exemplo que construí!

domingo, 3 de março de 2013

SONETO DA TROCA DE OLHARES

Quase de repente sinto um arrepio,
Nada que por ora tenha me afetado.
Era brisa nova em sopro agraciado
Ou fosse talvez um vendaval tardio.

Nisto não há nada que me seja hostil,
Não fosse o suspiro por mim suspirado,
Mas como conter o peito emocionado
Se por ele tenho condição servil?

Quase de repente sinto um arrepio,
O motivo justo do que se sentiu
Deixarei nos versos meus anunciado:

Como se apagasse a dor que me feriu,
Avistei os olhos teus! E assim sorriu
Meu olhar dentro do teu, realizado!

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

LEMA

Poema,
Que nada tema!
E se há temor,
Por favor,
Seja lema!

Faça a dor
Ser a flor!
Faça a pena
Escrever com fervor
Um poema!

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

PODERIA DIZER QUE ERA A MORTE, ISABELLY...

Horas em que a morte está onde me vejo.
Ronda-me à penumbra, falta-me saída.
Em meu desespero por achar partida,
Não sei discernir se luto ou me rastejo.

Como se a morte aproveitasse o ensejo,
Toma-me no colo, entranha-me a ferida.
Sinto que é chegada a minha despedida
E não mais reluto à dor, apenas deixo

Que o castigo venha pelo que almejo,
O pavor me assombre em seu último beijo,
Que mate a existência outrora dolorida!

Eis que a morte ataca e tenta meu despejo.
Mas se por ventura morro de desejo,
Vem tua atenção e me recobre a vida!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

AMOR DE POESIA

Amo de verdade.
Amo! Como eu amo!
Não como nos filmes,
Livros ou romances.
Amo de verdade!
Amo noutro plano!
Como nos poemas!
Amo, amo, amo...

domingo, 17 de fevereiro de 2013

SONETO DOS VINTE E CINCO ANOS

Tenho vinte e cinco anos mal vividos
Para tanto sentimento que me invade.
Mesmo se tivesse séculos de idade
Jamais caberiam neles meus sentidos.

Tenho vinte e cinco mil versos sofridos,
Tantas vinte e cinco mil outras saudades,
Vinte e cinco mil são as felicidades
Que por vinte e cinco anos têm surgido.

Sendo assim, jamais seria concedido
Um viver que não tivesse em si contido
Um punhado de sentimentalidades.

Mas hoje sorri à noite um riso infindo
E o fiz de um jeito que fui permitindo
Que durasse em mim por uma eternidade.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

SONETO RETICENTE DO ALENTO

Poderia apresentar belos dizeres,
Arriscar versar minha vida em um soneto,
Resumir em duas quadras, dois tercetos
Duas mil ternuras, mil e dois sofreres!

Mas qual poesia tem estes poderes?
Jamais poderia haver contentamento!
Tantos são os anos, mais os sentimentos!
Onde caberiam tantos mil viveres?

Mas se aqui coubessem estes pareceres,
Posso admitir para todos os seres:
De nada adianta se este é meu intento!

Tu estás em mim, vivendo em meus quereres,
És alento meu, se escrevo é para veres
Que um poema é pouco para meu alento...

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

ENTREGA ETERNA

Na poesia eu sou o que quero:
Amante, tratante,
Sou verso sincero!

Entrego-me àquilo que nunca terei,
Eu tenho aquilo ao que não me entreguei.

Na poesia sorrio lamento,
Parado, alado,
Eu voo ao vento!

E toda tristeza parece sorrir,
A lágrima é verso que pode existir.

Na poesia não existe culpa,
Eu faço, refaço
O que ofende, o que insulta!

A todo feitio que por acaso doa,
Vem a poesia e releva, perdoa.

Na poesia me sinto acolhido,
Desejo e me vejo
Sem ser reprimido.

Se achar que o poema só me disfarçou,
Eu digo: é nos versos que sou quem eu sou!

sábado, 2 de fevereiro de 2013

DAS MUDANÇAS

De que adianta
Mudar de vida,
Mudar de tudo,
Mudar sem fim,
Se a vida muda,
Se tudo muda,
Mas não se muda
Você de mim?


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

POESIA FEITA DE PAPEL

Minha poesia é feita de papel,
Papel de presente ou de tempo que for;
Embrulha amarguras, risos, pedra, flor,
Enfeita o vazio do tamanho do céu!

Minha poesia é feita de papel,
Há de ser o meu papel versar amor!
Quantos mil papéis preciso p'ra compor
Toda poesia que há jogada ao léu?

Meu papel espelho; verso: meu pincel
Colorindo em letras o que apareceu
Refletido em mim, o que desabrochou.

Minha poesia é feita de papel,
No entanto afirmo, dos poemas meus,
Ninguém poderá rasgar o que restou!

domingo, 27 de janeiro de 2013

QUANTO AO SONHO

Será estranho se eu admitir
Que sonhei com você
Antes de dormir?

CHAMADO


"Poesia! Poesia!"
Será possível que não ouvia?

A voz chamou,
Som ecoava.
Ninguém chegou.
Ela já estava!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

SONETO DA FELICIDADE ANUNCIADA

A felicidade fora anunciada!
Preparei nos lábios meu melhor sorriso,
Resguardei o dia, por achar preciso,
Para celebrar a paz tão aguardada!

Eu imaginei a dor desavisada
Intentando envenenar meu paraíso,
Mas que lhe servisse, então, como aviso:
A paz fez anúncio de sua chegada!

Corri ao encontro da calma esperada,
Parei ao portão, minh'alma agitada
Trouxe a ilusão, fez-me perder o siso!

A felicidade outrora desejada
Não apareceu; e a dor envenenada
Estava ao portão a exibir seu riso.


terça-feira, 22 de janeiro de 2013

AO QUE É ETERNO

Um dia passarei.
Não serei mais que folhas envelhecidas nalgum canto,
Pó de margaridas em qualquer lugar,
Talvez reciclado para novas declarações doutros poetas,
Talvez terra a abrigar mais flores amorosas...

Mas passarei.
E é bom saber que, ao passar, ainda serei poesia,
Ainda serei folhas envelhecidas nalgum canto,
Pó de margaridas em qualquer lugar,
Talvez sobreposto por declarações de outros poetas,
Talvez ao caule de alguma flor amorosa...

E novamente passarei.
Pois tudo passa, de forma ou outra.

E quando eu passar a ser
Não mais que as folhas envelhecidas nalgum canto,
Pó de margaridas em qualquer lugar,
Já não houver atenção às declarações deste poeta,
Nem mais forem memoráveis as flores amorosas,

Ainda assim, no que restar de mim,
Seja nas folhas envelhecidas nalgum canto
Ou no pó de margaridas em qualquer lugar,
Haverá o amor que é teu.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

SONETO DA EXCELÊNCIA

Meu semblante expressa minha leveza,
Trago em mim um riso contentado,
Vivo de amizades rodeado,
Donde encontrei maior riqueza.

Já brotou dos olhos correnteza,
Fui por mil angústias afogado.
Pelos versos sempre enamorado,
Fiz da poesia a luz acesa

Qual farol a anunciar certeza
De uma salvação que traz beleza
A quem naufragou desesperado.

Mas devo assumir minha fraqueza:
Mesmo não vivendo de tristeza,
Sou, por excelência, amargurado!

domingo, 20 de janeiro de 2013

VERSINHOS FEÉRICOS

Não pude voar
Como ela.
Tentei, tentei
Sem dar conta.

Batia meus braços,
Mas nada e nada!
Meu grito faz onda:

"Então que se fada!"


quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

OLHOS MEUS DE BEIJA-FLOR

Olhos meus de beija-flor,
Parando em todo jardim,
Voando, buscando cor,
Meus olhos beijando assim,

Ora com beijo contido
Quando a flor dos olhos vistos
Tem perfume incisivo
Desses que intimidam a mim.

Ora com beijo assanhado
Se o olhar fora regado
Com desejo despertado...
Beijo que não chega ao fim!

Ora com beijo profundo
Quando a flor parece o mundo,
Todo ardor é oriundo
Da coloração carmim.

Ora com beijo inefável
Quando a flor, inexplicável,
Supera o admirável
Das flores desses jardins.

Olhos meus de beija-flor,
Voando daqui a ali...
Que pena se alguma flor
Prendê-los só para si!


SONETO DO EGOCENTRISMO

Quem se importa com a dor de um poeta?
Nada traz aos olhos um pranto sofrido!
E quando acontece um fato parecido,
Não é do poeta a dor que mais afeta.

É a própria dor nos versos refletida;
O egocentrismo de quem lê os versos;
São os sentimentos antes tão dispersos
A se concentrar nas lágrimas caídas.

Portanto a leitura, denuncio a fundo,
É um ato sujo de egoísmo imundo
No qual o autor sequer virá à cena.

Se te fiz chorar ao escrever, lamento,
Mas meu coração da culpa está isento.
Choras por tua dor, jamais pelo poema!


sábado, 12 de janeiro de 2013

POESIA DE FLERTE

Meus olhos se perdem
Nos olhos alheios,
Sem freios,
Receios.
Em meio a suas falas
Que falam sem falhas,
Sem formar palavras,
Eu ouço soando
Sorrisos contidos,
Silêncios, zunidos
Do eco da alma
Que grita em quietudes.
E os olhos se perdem,
Perdidos intentam
Achar-se nos olhos
Alheios, alados,
Ao léu estrelado,
No brilho da estrela
Dos olhos de alguém.


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

ORAL

Sentir, do amor,
Na língua o sal;
Matar pudor,
Calar moral;
Sugar o líquido carnal;
Em toda a boca,
Amor oral.

sábado, 5 de janeiro de 2013

A LUTA DE SANGUE


- Olha a luta! Ninguém segura!
- Porrada?
- Porrada?! De forma alguma!

- Sem soco, sem chute, sem nada?!
- Só sangue!
- Que sangue? Rolando porrada?

- Já disse que não! Segue a luta!
- Feridos?
- Muitos! Outros salvos. Escuta...

- Não entendo! Que luta é essa?
- Silêncio!
- ... Essa luta, como começa?

- Ela começa no coração!
- No peito?
- Exato! Tenha mais atenção!

- Eu posso senti-lo sangrando...
- Escute!
- Escuto meu peito gritando!

- Pois são seus desejos fluindo!
- Não creio!
- Conte-me o que está sentindo.

- Eu sinto que preciso voar!
- Pois voe!
- Como posso sair do lugar?

- Encontre a maneira em você.
- Machuca...
- Mas faça isso tudo valer!

- Sinto algo estranho. O que é isso?
- Conflito.
- É a luta que disse no início?

- Exato! A luta de sangue!
- Entendo!
- Feriu-se, mas siga adiante!

- A luta... acho que entendi!
- Pois diga...
- A vida é batalha! Eu senti!

- E vai batalhar de que jeito?
- Na arte!
- Na arte? Pois acho perfeito!

- Voarei! Eis minha conduta!
- Conclua!
- Meu sangue, minhas dores, minha luta!

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

SONETO INCOMPREENDIDO

Eu notara outrora em mim belo sentido,
Ímpeto bravio, surgiu qual poesia!
Um calor que só o verso explicaria,
Que nada faria perecer contido.

Um regozijar que em tudo é permitido,
Algo mais bravio que o ar na ventania!
Ao passar do tempo, maior é a valia
Deste bem-sentir que em mim fora nascido.

Mesmo sendo meu sentir incompreendido,
Nada há de barrar este grito incontido
Que entoará em tom de rebeldia!

Caia, opressão! Meu som será ouvido!
A quem perguntar, eu tenho definido:
Esta sensação é a voz da Anarquia!