Respeite a arte! Ao reproduzir em outros lugares a obra de algum artista, cite o autor. Todas as poesias aqui presentes foram escritas por Mao Punk.

Visite também meu blog de textos: RESQUÍCIOS DEPRESSIVOS, SUJOS E NOJENTOS .
Textos que expõem a fragilidade e indecência humanas de forma irônica, metafórica e sem embelezamentos.

domingo, 5 de março de 2017

POESIA PÓSTUMA IV

Meus últimos dias nem sequer senti.
Não sei ao menos dizer quando começaram.
O fim já se anunciava, sim.
Mas como saber que era o fim?
Era a minha primeira viagem.
Somos todos viajantes de primeira e única viagem!
Mas eu não sei quando foi que embarquei.
Dias antes perdi o gosto na vida,
Talvez meses ou anos antes.
Na verdade, não me lembro quando tive gosto na vida.
Talvez uma ou duas vezes. Desvios.
Talvez fossem apenas a preparação para a morte.
Dizem que antes da morte há o bem-estar.
Mas faz tanto tempo que talvez eu nem tenha percebido
Que morri bem antes, muito antes, do que penso.

Como a vida pode doer em quem já não vive?
A morte não é descanso, é lamento.
A morte é a poesia que se escreve sem rumo,
É literatura de merda para as moscas.
Sinto que sou a única mosca em minha própria poesia.
A morte é também essa mosca insossa.
A morte é esse retrato estúpido e apagado:
A mosca, a merda, o verso que exala,
A sujeira fétida que repele, o nojo,
A ânsia de vômito pelo que já está feito.
A morte! Simplesmente a morte.
E aqui estou eu, figurando o retrato.
Talvez seja este meu retrato mais expressivo.

Eu parti. Não sei dizer quando aconteceu.
Nem posso dizer que foi de repente.
A morte nos ronda dia após dia.
Eu não sei quantas vezes já morri antes,
Mas sei que meus enterros foram silenciosos.
Sem visitas, sem lágrimas, sem vestígios.
Ninguém percebeu.
Quem dera se toda morte fosse despercebida!
Vi a morte de tantas coisas...
E fui eu o próprio coveiro. E doeu.
Talvez por isso eu tenha morrido,
Por ser a tumba das coisas importantes,
Por ser o colecionador de mortes,
Por carregar a morte dentro de mim.
Mas qual é o vivo que não carrega?

Na minha condição, eu sigo.
Já não há espaço para esperanças,
Nem sequer para muitas reclamações.
Tudo está em seu devido lugar:
As ruas, as pessoas, os carros,
Os cachorros, os gatos, os insetos,
As ilusões, as paixões, os amores,
As desesperanças, as decepções,
As poucas árvores, as praças,
As virtudes, os defeitos, as dúvidas,
Os vivos, os que pensam que vivem
E eu.
Era uma vez um reino de mortes.


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

A paz é a desgraça do poeta.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

A PAIXÃO NÃO DECLARADA

Ressoa em mim um gélido suspiro
Ao tempo em que meu coração se abrasa,
Como se a tua figura desse asa
A quem só poderá cair ferido.

E ecoa o canto teu em meu ouvido,
Como se o ouvido meu fosse morada
À tua cantoria emocionada,
E eu pela emoção assim me guio.

Só de lembrar me sobe um arrepio,
Um riso, um lamento, um desvario,
Uma vontade louca irrefreada

De admitir que o peito te sorriu
Desde o primeiro instante em que te viu...
Mas eis uma paixão não declarada!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

AO PEDIDO DE LALI

Quis a vida que você surgisse,
Quis a vida que eu fosse poeta,
Quis a vida me trazer a meta
De versar algo que te servisse.

Porém, como se algo me fugisse,
Como se perdesse do alvo a seta,
Todo verso escrito em linha reta
É como se ao punho decaísse,

Pois talvez tenha sido tolice
Tentar um poema que cumprisse
Te servir da forma mais correta:

O poema em si até existe,
Mas a arte nele não persiste
Se tua atenção não o completa.

domingo, 15 de janeiro de 2017

RECADO A UM MERITOCRATA

“Cidadão de bem” anda revoltado
Com a violência dessa sociedade.
Por essa crescente criminalidade
Anda se sentindo aterrorizado.

Pois que seja dado então este recado:
Por achar que é dono de toda a verdade
E por desprezar nossa realidade,
Queremos te ver bem mais ameaçado!

Somos atacados por sua covardia,
A tão conhecida “meritocracia”,
Coisa que não passa de discurso feito

Para desprezar com ódio as minorias.
Pois então que seja o mérito do dia
Te fazer sofrer pelo teu preconceito!


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

POEMA FEITO DE PEDRA

Carlos me avisou:
O mundo não vale a pena
E sequer vale o próprio mundo.
Eu é que me descuido.
Eu é que ainda penso
Que qualquer coisa que faço
Vale-me o passo que é dado,
Vale-me os passos falsos.
Valha-me, céus! Nada disso!
Eu apenas ando e tropeço.
E invento causas às coisas,
Como todos nós.

Eu sou como quem me fere.
Eu me firo como a outrem.
Eu sou humano.
Para minha infelicidade
Não nasci pedra.
Quisera eu ser pedra!
Ser a pedra desinteressada,
A pedra dura,
A pedra alheia, calma,
A pedra indiferente,
A pedra não notável.

Pedras não concluem poemas.


quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

DE TODOS OS SENTIDOS

Perdi o tato para escrever.
Perdi a métrica em alguma esquina,
Em algum cruzamento dentro de mim
Entre o passado e o agora.
Perdi o tato após ter perdido o paladar.
Há muito tempo perdi o paladar!
Não sinto o gosto das coisas.
Raras vezes algum sabor se pronuncia.
E se dissolve.
Perdi o olfato. Não sinto as flores,
Os perfumes do dia-a-dia.
Serei eu ou não há flores?
Serei eu ou não há perfumes?
E cadê os sons, céus, os sons?!
A musicalidade, o ritmo…
Perdi a audição no silêncio do luto.
Eu perdi minhas poesias para o passado.
Mas não perdi a visão.
Não perdi o olhar que captura novos versos,
O olhar que expressa,
O olhar que enxerga além do que eu queria
E vê além, bem além, dos limites.
O olhar é crítico. O olhar é vivo.
O olhar tem tato. Derrama-se em tudo.
O olhar sente o gosto do que a alma vê.
O olhar escuta a alma e a pronuncia.
O olhar tem voz!
Perdi os sentidos no que se passou,
Mas Quintana me avisou
Que meus olhos passarinhos.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

UM DIA, AO ACASO

Um dia, ao acaso,
Encontrar-nos-emos.
E teremos receio do que vem depois.
E o depois virá
E haverá o abraço.
E depois do abraço,
O corpo trêmulo.
E depois do tremor,
A água nos olhos.
E depois disso,
O desejo de sempre.
Mais uma vez.
E, depois, a despedida.
E a saudade.
E tudo será sempre assim.
Um dia, como hoje,
Ficarei ausente,
Ficarei distante,
Ficarei louco,
Gritarei por ti
Aqui dentro.
E te amarei
Como eu amo,
Como sempre amei,
Como sempre amarei.
Um dia, ao acaso,
Quem sabe,
Nós dois.


segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Olá, leitorxs!

Estou postando apenas para registrar e compartilhar minha felicidade por ter me classificado em 1º lugar no "Concurso de Poesias Júlio de Queiroz", promovido pelo Grupo Poetas Livres!

A poesia classificada foi "Poesia Gritada às Paredes", que pode ser lida no link abaixo:

http://oourodamiseria.blogspot.com.br/2015/03/poesia-gritada-as-paredes.html

Beijos para todxs!

Paz e Anarquia!

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

DO RESPEITO

Respeitar minhas limitações,
Minhas fraquezas, minha falta de coragem,
Minha estupidez e meu azar.
Respeitar, enfim, meus anos de poeta.
Eis o fardo que carrego!
Minhas vontades me traem,
Não me incentivam, são tolas
E tão covardes quanto eu!
Minhas vontades me deixaram vazio.
Minhas vontades regaram ilusões.
Deram frutos. Comi-os.
Estupidamente comi-os.
Eu cultivo a amargura de uma vida inteira.
Porém, respeito-me.

Respeito-me ainda que eu me odeie.
Aprendi a conviver com o que não se cura.
E nada cura. São apenas novas feridas,
Mais ou menos profundas, mas feridas.
Sou uma ferida aberta.
Respeito-me pelo que sei, não pelo que sou.
Respeito-me pelo que a vida é.
E a vida é cheia de falhas.
A vida é uma grande falha generalizada.
Em meio às falhas, eis o fraco,
O covarde, o estúpido, o poeta.
Aprendi a respeitar meus desastres.
Respeitar-me é saber que tudo é nada.


sexta-feira, 9 de setembro de 2016

POESIA PÓSTUMA III

Mais uma vez na cova escura,
Cavando mais fundo com os dentes,
Tentando engolir o que resta
Do que nunca, em tempo algum, foi.
A cova. A casa. Aquieto.
Permito-me o caos do enterro.
A hora inevitável voltou.
Sou um ponteiro para cada morte.
Agora é nova hora de morrer,
De matar em mim o que vive,
O que vive mais do que eu.
Eu estou morto. Novamente.
E que morra tudo o que trouxe comigo
Nesta tumba, neste vão,
Trincheira de guerra perdida,
Neste lar em destroços,
Neste escombro macio,
Neste canto só meu, todo meu!
A vida me testa,
Eu detesto
E atesto meu testamento:
Não busque flores nesta cova.
A vida não me foi gentil.
Eu não deixo legado,
Não deixo esperanças,
Eu deixo apenas a impressão
De que tudo passa.
Tanto já passou enquanto vivi!
E passou para não voltar.
Nem sempre voltei. Passei.
Lembranças. Apenas lembranças.
Como tudo. Tudo é isso. E isso é tudo.
Agora sou lembrança, até que ela falhe.
No mais, sou eu nesta cova,
Morto. E mais vivo que outrora.


sexta-feira, 2 de setembro de 2016

A VÉSPERA ABSTRATA

Hoje é a véspera de um dia cheio
De falsas superações e tropeços,
De ilusões acumuladas,
A véspera do recorrente.
Hoje é a véspera do descontentamento,
A véspera de um dia como hoje,
A véspera repetitiva, tola,
A véspera de mais uma morte minha.
Hoje é a véspera do riso vão,
Das vontades reprimidas,
Dos desejos que se debatem
Na imitação dos desejos de ontem
E de hoje. Hoje: a véspera amargurada,
A véspera da amargura,
A véspera que procede um dia amargo,
A véspera. Apenas.
E de vésperas estúpidas vivemos,
Como se tudo pudesse mudar,
Pois hoje é a véspera de mudança alguma,
Amanhã será a véspera do “tudo igual”.
Ontem foi véspera – de quê mesmo? –
E ontem nada mudou.
Hoje nada muda.
Amanhã nada mudará.
E viveremos uma eterna véspera abstrata.


domingo, 21 de agosto de 2016

SONETO PARA QUANDO A VOZ SE CALA

Antes da palavra ser calada
Escrevi mais versos, num apelo,
Para registrar, com todo zelo,
Esta sensação inesperada.

Um ato assim, tão invasivo,
Tem licença à causa que carrega.
Com perdão do feito, esta entrega
Há de se tornar meu lenitivo.

Antes que se cale todo verbo
- Nada do que digo exacerbo -
O que sinto deve estar expresso,

Pois quando te vejo emudeço.
Por te admirar é este o preço
E para expressar te faço verso.


(2012)

EU TRAÇO!

Ah, eu traço!
Aquela eu traço!
Traço sem nenhum embaraço.

Nem perco o compasso,
Logo me enlaço
E então me desfaço...

Ou refaço!
Mas que eu traço, eu traço!
Eu faço o maior arregaço!

Eu traço na folha
Meu traço.
É meu espaço!

E nesse amasso,
Sem cansaço,
A Poesia - ah, a Poesia! -
Eu traço!


(2013)

VERSOS PERDIDOS E RESGATADOS DE UM TEMPO ESQUECIDO

Ao observar além do que se avista
Há na flor mais flores do que se aparenta.
Há de ser aquele que não se contenta
Mais feliz que aquele que nunca se arrisca.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

A CRIAÇÃO DO SAGRADO, PRIMEIRO ENSAIO

I

Toda vontade que tenho é de mim mesmo.
Não existe outra vontade que não seja de mim.
Não há no mundo outra vontade que não seja essa:
A vontade de si próprio, do encontro consigo.
Toda paixão que nos aflora é por nós mesmos,
Pois nas semelhanças com o próximo
Findamos por lhes exaltar nossas virtudes,
E as virtudes que nos faltam,
Essas virtudes abundantes no alheio,
Queremos tomá-las e fazê-las nossas.
É a criação do sagrado, dos deuses e deusas,
Dos altares, dos preitos, das sentenças.
Porém o andor tem nossos próprios pés.
A complementaridade é placebo:
Procuramos para nós o que está no outro,
Pois toda vontade que temos é de nós mesmos.


II

Tudo que nos é caro é nosso,
Tudo que adoramos nos agrada,
Tudo que nos agrada é como nós,
Porque queremos a nós mesmos.
Quando me odeio, não me tenho.
Quando me odeio, estou longe de mim.
Quando me odeio, adoro aquilo que me reafirma,
Adoro as cores que lembram a mim,
Adoro os sabores que lembram a mim,
Adoro as pessoas que lembram a mim.
Eu me anulo.
Eu me anulo para adorar no alheio o que possuo,
Mas não enxergo.
Toda vontade que tenho é de mim mesmo.


III

Toda frustração vem da distância,
Da distância entre o querer e o possuir,
Pois quando nos atiça o alheio,
Distanciamo-nos de nós,
Distanciamo-nos buscando no outro o que já temos
Ou o que queremos cultivar em nós.
Mas regar jardins vizinhos não floresce teu quintal.
Toda vontade que tens é de ti mesmo.

terça-feira, 7 de junho de 2016

REVERBERAÇÃO

Já se foi.
Reconhecer que o fim não volta,
Que o que ainda reverbera na mente
E reverbera no peito, não existe mais.
É só a extensão de um som que já se acabou,
De um sentir que já se findou,
É só a luz no céu de uma estrela que já se apagou.

Reverbera.
Ainda sinto.
Mas já se foi,
No primeiro verso da poesia.

domingo, 29 de maio de 2016

POESIA PÓSTUMA II

Perdoem-me o silêncio.
Não o silêncio de agora,
Já que agora não posso ser mais que o silêncio.
Eu peço perdão pelo silêncio de outrora,
Aquele mais estrondoso que o choro à minha volta.
Eu sei que não dei atenção.
A tensão que me foi dada trancou minha boca,
Calou minha voz, emudeci.
Não pude dizer que não era feliz.
Infeliz também não fui, mas amargurado.
Perdoem-me a ausência em meu lar
Quando em meu lar eu estava presente.
Talvez fui mais ausente do lar em mim mesmo.
Eis que o silêncio era o caminho da permanência.
Eu quis permanecer em mim.
Falhei ao notar que eu não me aturava.
E permanecer incômodo é ausentar-se de tudo.
Mas eu tentei.
Quem tentou entender meu silêncio?
Antes julgaram. Tenho defeitos fáceis.
Porém, os dedos antes em riste,
Aqueles que me flechavam qual penitência,
Hoje secam lágrimas vãs.
É vão penar por quem não vive.
É vão viver dos mesmos erros.
E já não vivo para ver mudanças.
Talvez esperei mais mudanças do que era possível,
Quem sabe esperavam de mim mais do que eu fui
Ou ainda tenham me enxergado maior do que eu era,
Quiçá mais inútil do que eu me sentia
Ou menos imprestável do que eu me enxerguei.
O fato é que todo fato se enterra
E toda dúvida que surgir já surgirá morta,
Morta e enterrada comigo.  Nada vive.
Nada além de tudo que não vivi,
Nada além do que nunca tive.
E aquilo que um dia tive não vem comigo,
Vive à parte. E eu parto.
Parti.


domingo, 17 de abril de 2016

ACEITAÇÃO

Eu me contentarei com meu melhor.
E meu melhor é ser um derrotado.
Minha virtude é ausência de vaidade,
E embora eu queira aquilo que não tenho,
Não tenho a pretensão de alcançá-lo.
Eu sei que jamais alcançarei.

Então eu emudeço e observo
A impotência em ser o que eu sou.
Encaro-me nos olhos, quero chorar.
Quero arrancar de minha frente
Este ser que incomoda os olhos,
Incomoda o respirar, incomoda o viver.
Mas nunca arranco.

Eu me contento em não me aceitar.
A aceitação é hipócrita.
Eu me contento em ser verdadeiro.
E a verdade está estampada no espelho,
Está esticada no colchão quando acordo
E está farta de tudo quando me deito.
A verdade está isolada, desolada, incomodada,
Amargurada, a verdade que sou!

Todas as belezas renunciaram meus cuidados.
Eu renunciei a ilusão. A beleza não existe.
Eu tenho uma bagagem cheia de verdades,
Cheia de vácuos espaçosos e pesados,
Cheia de absoluto pesar. Cheia de mim.
Eu não posso ter além do que me cabe.
E em mim só cabe eu e o vazio.
Eu me contentarei com o que me cabe.

Não há canções que falem sobre mim.
Algumas dizem sobre coisas que sinto,
E sentir nem sempre é viver.
As canções que sinto não são sobre mim.
Nada é sobre mim neste mundo triste,
Apenas meus versos, esses rejeitados!
E eu me contentarei com meus versos.

E esse é o melhor que eu consigo:
Estar a esmo e aceitar o fato.
Não quero discutir com meu destino,
Destino não existe, é antes sorte.
E contra a sorte que jamais eu tive
Não há de se ganhar jamais a causa.
Por fim, eu me contento em ser poeta.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

ERALDO

Difícil entrar no ônibus lotado
Já fatigado da amargura forte,
Lembrar das coisas que deixou no Norte
Que agora fazem parte do passado

E ver uma cidade castigada,
Clausura do trabalho ao domicílio.
As mãos nunca estendidas como auxílio,
Pois todas já estão muito ocupadas

Dispondo as duras pedras no caminho.
Eraldo imaginou estar sozinho
E quis desabafar sua triste sorte,

Mas ninguém dá ouvidos na cidade.
Lembrou de sua terra e deu saudade:
"Que falta faz quebrar coco no Norte!"


domingo, 27 de março de 2016

VERSOS DE SAUDADES

Eu tenho saudades do que nunca tive,
Pois quase nada tive para que um dia eu pudesse perder.
Eu haveria de saber o que é saudade de alguma forma.
Todo mundo aprende em algum momento.
E foi assim que aprendi: perdendo antes de ter.

A maior parte do tempo eu sinto saudades
Do beijo que nunca dei, das trocas que nunca aconteceram,
Das lembranças que nunca existiram além da minha imaginação.
Eu tenho saudades de quando eu estava iludido.

Tenho saudades de cada momento passageiro que em mim nunca passou.
Eu tenho saudades do que sempre quis.
Eu tenho saudades do que nunca será.
E tenho saudades de quando não havia saudades.

Eu tenho saudades de versos que nunca foram escritos,
De perfumes que nunca senti, de camas em que nunca deitei,
De despedidas que nunca tive seguidas de “até mais”.
Eu tenho saudades de deitar com o corpo contente,
Com a mente tranquila, com a certeza de que há carinho.
Eu tenho saudades do que nunca tive.

Eu tenho saudades de versos recíprocos.
Eu nem sequer sei o que são versos recíprocos!
Eu tenho saudades de poesias vividas,
Vividas além dos desejos, além das impossibilidades,
Além das vontades contidas, além dos muros,
Além dos gestos inseguros, além das incertezas...

Eu tenho saudades dos sentimentos sem freios.
Apenas eu tenho sentimentos sem freios.
Eu tenho saudades dos meus sentimentos abraçados,
Abraçados inteiramente, sem impedimentos.
Eu tenho saudades de mundos mais fartos,
De ruas mais calmas, de dias mais livres,
De frio na barriga, de calor na alma.

Hoje sou morno. Não posso ser nada além disso.
E o tempo se encarrega de esfriar o que for.
Dentro de mim eu sou morno.
Mas quem confiaria? Quem saberia?
Eu sou amargurado e nunca acreditaram.

E fora a saudade, fora o que nunca tive,
Que motivos tenho para ser triste?
Sou amargurado, sim. Mas triste só quando sofro.
E claro que sofro. Mas estou bem.
Hoje é mais um dia. Amanhã outro.
A saudade é eterna, a amargura também.
Viver é passageiro. Viver é tão rápido!
E não quero ter saudades da vida. 




domingo, 13 de março de 2016

CAMILE E TAINÁ

A noite, quando chega, brada ao vento:
“Cuidado, pois reservo mil perigos”
E sem dar atenção a tal aviso,
Eu vi naquela noite o atrevimento

De duas ébrias moças pelas ruas
Que na inocência de sua pouca idade
Confiam num poeta da cidade
Que se viu preocupado com as duas.

Camile estava menos alterada,
Contava como odeia a família
Enquanto Tainá se pôs deitada

Queixando-se do efeito da bebida,
Com sua voz um pouco enfraquecida,
Após ter vomitado na calçada.


domingo, 6 de março de 2016

POESIA PÓSTUMA I

Não vivi feliz,
Mas fui feliz sempre que pude,
Também fui triste além do que quis
E fui sábio por força do acaso.
Cheguei além do que eu esperava,
Quase nunca onde eu queria,
Fiz mais coisas do que julguei,
Vivi bem mais do que eu soube
E morri mais vezes do que pensei.
Não deixo nada além de versos,
Certamente um punhado de saudade
E possivelmente algum tanto de mágoa.
Também levo comigo mais do que essas flores,
Essas flores de agora tão mais fartas
Que as poucas que recordo ganhar em vida.
Eu levo comigo as marcas que nunca sumiram,
Mas também os momentos de risos abertos.
Eu sou mais que um corpo gelado à mesa,
Eu sou a minha antologia completa e finalizada,
Eu sou o ciclo fechado do que nunca foi planejado,
Sou e fui bem mais do que enxergam.
Ninguém enxerga nada.
Eu mesmo não me via como eu era
E hoje esses olhos farão a cerimônia na terra.
Mas quem disse que é preciso ter olhos?
Para ver a essência é preciso sofrer.
O sofrimento é a visão dos prudentes.
Fui prudente o quanto pude,
Pude bem mais do que eu gostaria
E também menos do que me preparei.
Eu fui embora, mas nem por isso
Fui aquela pessoa virtuosa que dirão por aí.
Fui virtuoso, sim! Não em tudo.
Alguns relatos são ressentimentos guardados,
Outros são exageros, outros pena,
Alguns compaixão.
Eu fui embora sem perdoar muitos erros,
Não relevei atitudes dolorosas
E até o último suspirar carreguei mágoas,
Mas também carreguei amor.
E tudo que não pude perdoar,
Tudo que não quis relevar,
Toda minha aversão a quem machuca,
Serão só detalhes para quem fica,
Pois deixo de herança o amor.
Herdem-me todos e dividam!
E festejem! Festejem a partida!
Festejem com poesias, música, arte,
A quem quiser, que bebam, que façam orgias!
Mas festejem a partida!
Aqui jaz a amargura que deixou o amor viver.



sábado, 20 de fevereiro de 2016

CARTÃO POSTAL

O tempo passa, quase nada fica,
As pessoas ainda se esbarram
Para o desencontro de amanhã.
Tudo ainda fede nas ruas do centro
E a Sé só é bonita no cartão postal.
Se existisse outra sorte,
Talvez ninguém soubesse lidar.
Talvez essa sorte exista
E ninguém nunca soube.

Nenhum trevo de quatro folhas enfeitou meu berço,
Nem sequer meu jardim,
Nem sequer soube a vida que há trevos.
Atrevo-me a saber que não há.
E, no entanto,

As pessoas ainda se esbarram
Para o desencontro de amanhã.
Felizes demais para notarem que são tristes.
Felizes com as migalhas que dividem
Com os pombos famintos da Praça da Sé.
Há muito mais verdade nos pombos.


domingo, 10 de janeiro de 2016

A QUEDA INEVITÁVEL

Deixe-se cair
Se for para ir além.
Se a dor está em tudo,
Que mal tem?

Não existe céu
Que não desabe um dia,
Nem sequer um poço
Onde não caiba poesia.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

SONETO DE NASCIMENTO

Este poema não é sobre esperança,
Pois a esperança há tempos faleceu.
Estive em seu leito e agora descansa.  
Quão cruel a vida, o coveiro fui eu!

E se o pranto cai e umedece o chão
Fazendo brotar da terra alguma flor,
O mesmo não serve qual consolação
Para o que findou e àquilo que inda for,

Pois tudo que morre permanece morto
E desconsidera o que nos molha o rosto.
Mas quis o poema celebrar o dia!

Se minha esperança é morta e enterrada,
Com o amanhecer nasce uma alvorada
E junto à alvorada nasce a poesia!


domingo, 20 de dezembro de 2015

POESIA DE GUERRA E PAZ

Que se pondere quando a paz,
Que se pondere quando a guerra.
Quem fere a calma a culpa traz,
Quem dá o rosto ao bruto erra.

Quem nada faz frente ao que jaz
Também padece ao ser passivo;
Personifica o capataz
Quem sem razão é agressivo.

Que a paz não seja declarada
Enquanto nos faltar prudência
E a guerra nunca anunciada
Ao nos faltar a consciência,

Pois a batalha que é travada
Em despreparo e inocência
É como a paz que é ofertada
A quem por nós não tem clemência.



sábado, 28 de novembro de 2015

FORMA E FORMAÇÃO

Eu nasci pra ser poeta!
Profissão não é minha meta,
É apenas profissão.

Se terei ou não canudo,
Isso não define tudo.
Sou poeta em formação!


quarta-feira, 4 de novembro de 2015

O DIA DO DESAPEGO

No dia do desapego,
Nem rastro que os olhos deixam,
Nem pesos que o peito leva,
Nem mesmo um sorriso bobo
Que teima em aparecer,
Nem mesmo um suspiro avulso,
Nem dúvidas sobre os porquês,
Sequer as memórias boas
Dos tempos de ilusões,
Não haverá rádio alguma
Que possa fazer chorar,
Nem músicas selecionadas
Que falem sobre o que foi,
As ruas e seus caminhos
Serão só caminhos novos
E aquilo que se perdera
Jamais poderá voltar.
No dia do desapego,
Boa sorte com o que sentir.

domingo, 18 de outubro de 2015

DO VOO QUE É POSSÍVEL

Não ando bem,
Porque eu voo.
Não voo bem,
Porque eu finjo.
Não finjo bem,
Porque eu caio.
Não caio bem,
Porque resisto.