Respeite a arte! Ao reproduzir em outros lugares a obra de algum artista, cite o autor. Todas as poesias aqui presentes foram escritas por Mao Punk.

Visite também meu blog de textos: RESQUÍCIOS DEPRESSIVOS, SUJOS E NOJENTOS .
Textos que expõem a fragilidade e indecência humanas de forma irônica, metafórica e sem embelezamentos.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

SONETO DE AMOR E DESEJO

És obra inalcançável, de fina feitura,
Figura de perfeita imagem avistada!
És dona de beleza muito agraciada
De traços encantados, de ímpar candura!

É tanto que não posso encontrar a cura
Para a vontade viva, em peito enraizada,
De ter pelos teus lábios a boca tocada,
De sentir em teu beijo o fim desta procura!

Pois toma-me o desejo vendo tua figura,
E temo que o poema perca a compostura,
Mas como disfarçar se és tão almejada?

O pensanto muda, meu peito murmura,
Ao ver a perfeição de tua formosura,
O tanto que te amo, o quanto és desejada!

terça-feira, 20 de agosto de 2019

A FONTE

Permaneço inquieto frente ao fato
De haver questão tão inconclusa:
De onde vem beleza tão difusa,
Tanto que parece um desacato?

Não sei precisar, assim, no ato.
É uma questão por si confusa!
O que posso ver logo te acusa,
Pois te olhar traz este encanto lato.

E se vem de ti, como sou grato
Por poder te ver! Quem dera ao tato
Pudesse a questão me ser conclusa

Ao te oferecer meu melhor trato!
Assim, para além de teu retrato,
Afirmar no feito como és musa!

segunda-feira, 15 de julho de 2019

POESIA PÓSTUMA VII

Corpo frio. O ar já não me influi.
Já não sinto pulso, nada sangra.
Rigor mortis. Não há mais demanda.
Condição final que a mim inclui.

Eis que a cadavérica frieza,
Qual maior certeza que houvesse,
Toma o coração e o enrijece,
Livrando o defunto da tristeza.

Desta inevitável experiência
Sinto que esta morte foi clemência.
Continuo aqui, porém mais vivo.

Que contradição revela a cena!
Quando morre um coração que pena,
Surge um novo ser mais redivivo.

terça-feira, 9 de julho de 2019

SONETO COLATERAL

Parece que acabara a poesia
Deixando certo vão em minha história.
Fugira o sentimento de outrora
Que antes tanto o peito carecia.

Sumira a emoção que me fazia
Acreditar no eterno, muito embora
Ainda sinta, em suma, neste agora,
O peso do que antes eu sentia.

Mas é um peso morto, eu diria.
Uma saudade estranha, uma agonia,
Uma lamúria de aflição inglória!

Um misto de amor que não se esfria
Com a certeira ausência que alivia
Pulsando tristemente na memória.

sexta-feira, 15 de março de 2019

SONETO À TUA IMAGEM

Se a cada aparição de tua pessoa
Que me fizesse suspirar largado
Meus versos fossem para ti doados,
Sequer me sobraria um verso à toa!

Pois cada poesia que eu fizesse,
Com todas as virtudes que são tuas
Expostas, ao preencher as folhas nuas,
Seria pouco frente ao que mereces!

Mas posso, a cada hora que te vejo,
Elogiar-te, bela! A cada ensejo,
Eu posso admitir em meu suspiro

O quanto me encantas! E eu confesso:
Se me faltam palavras e os versos,
É só porque de sobra eu te admiro!

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

O PRIMEIRO PEDAÇO DO BOLO

Estou farto das poesias de hoje,
Das mensagens bonitinhas,
Desses versos de autoajuda.
Minha poesia é mais o caldo
Que sai do cu.
É a mistura visceral do que engoli,
Do que me fizeram engolir,
Do que me fiz engolir sem notar.
Eu não tenho mensagens positivas.
Talvez jamais as tenha escrito
Nesta inteira meia-vida
Ou nesta meia vida-inteira.
Meus versos agradam meia dúzia,
São ignorados por meio mundo,
Indiferentes ou meio à toa.
Eu escrevo para todos,
Mas não escrevo por ninguém.
Eu não atinjo quem precisa,
Se é que alguém precisa.
Somente eu preciso. E eu falho.
Eu falho, como sempre falhei.
E meus versos não corrigem nada!
Meus versos são testemunhas dos erros,
Das derrotas, das humilhações.
Meus versos me fazem mais torto.
Meus versos são todos tortos!
Estou fatigado desses versos moderninhos,
"Tudinho dará certinho",
Meu cuzinho, amigo! Meu cuzinho!
A poesia que respiro é real,
É verdadeira, dói, rasga,
É crua. A vida é crua
E só assa no fogo deste inferno.

sábado, 6 de outubro de 2018

VERSOS PARA A RESISTÊNCIA UNIFICADA

Não zombarão da minha luta,
Do meu suor por liberdade.
Não zombarão de quem nas ruas
Ousou sangrar por igualdade.

Não zombarão do meu trajeto,
Do meu legado libertário.
Não passará nenhum projeto
De um fascista autoritário.

Jamais darei qualquer respeito
A quem me quer ver torturado,
Jamais as mãos ao preconceito,
Jamais andar de braços dados.

A minha luta é por conquista,
Meu ideal é minha essência.
Não passarão, tolos fascistas!
A minha arma é a resistência!

domingo, 20 de maio de 2018

POESIA PÓSTUMA VI

A morte quando chega não avisa,
Silenciosamente ela se instala.
Não há sequer sinal a anunciá-la,
A morte quando vem nada ameniza.

Mas sorrateiramente se aproxima.
Ouviu-se um silêncio angustiante!
Por anos este vão se fez cortante,
Há tempos soa à morte toda rima.

E sem notar que ao tempo que corria
Alguma parte em mim já fenecia,
Continuei rimando a triste sorte.

Versando uma vivência sempre incerta,
Vivi para morrer como poeta,
Morri para versar a própria morte.

domingo, 4 de março de 2018

POESIA PÓSTUMA V

Já não havia nada.
Nem esperança, nem desilusão.
Já não havia nada que sustentasse a vida,
Aquela vida desgastada,
Aquele inútil fingimento de que uma hora,
Um minuto, um segundo, o riso viria.
Até veio. Veio inúmeras vezes.
Nunca de forma esperada.
Nunca de forma planejada.
A vida sempre foi mais desencontro.
E agora eu me desencontro da vida.
Já não há mais vida.
Nem esperança, nem desilusão.
Resta o resto de amarguras,
Restam meus restos largados,
Minhas histórias tornadas pó,
Minhas vivências inúteis...
Ah, se eu soubesse que seriam inúteis!
Jamais teria me doído tanto
A cada queda, a cada dor, a cada dia.
Já não há mais lamento.
Nem esperança, nem desilusão.
A vida sempre foi aquilo,
Nunca foi nada além daquilo,
Do vazio disfarçado,
Do vácuo camuflado,
Do vão. De tudo em vão.
A vida nunca foi boa.
Prossigo poesia ignorada.
Prossigo amargura anônima.
Prossigo futura descoberta de um gênio,
"Um gênio incompreendido"!
Genial! Palmas!
Palmas para a lucidez da obscuridade!
Palmas para a compreensão do caos!
Palmas, mais palmas!
Aplaudam o morto, o desgosto,
A perpétua terra onde não há paz!
Festejem o mundo em que estão!
Recolho-me na insignificância do que fui.
Hoje morto. Como todos vocês.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

UP TO

Na internet
Todo mundo é foda,
Todo mundo é pica,
Todo mundo é top,
Todo tech é força,
Todo post é berro,
Toda news é fonte,
Todo like é pop,
Todo fake é truth,
Toda treta é up,
Julgamento é hype,
Desabafo é fuck.
Compartilhe o ciclo,
Dissemine o vício,
Seja alguém na vida,
Ganhe seguidores!
Somos servos cegos,
Escravos dos egos,
Criadores próprios
Dos nossos senhores.



ELOGIO À BELEZA

Fico sem saber como te ser preciso
Ao reconhecer em ti tanta beleza
Feito luz que o tempo torna mais acesa
Para iluminar meus olhos se te avisto.

E quando te avisto mais beleza vejo,
Como se o limite nunca se alcançasse.
É como se o próprio tempo planejasse
Dar a quem te olha um tanto de desejo!

Por desconhecer como expressar o fato
E por não haver como ser mais exato,
Deixo a confissão vestir-se em poesia,

Pois não revelar teu brilho é desacato
À obrigação de quem deve ser grato
Ao te ver assim mais bela a cada dia!


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

SEU AMOR AONDE VOU

E se você me visse agora?
Se você me visse livre?
O que diria se me visse?
Quantos abraços me daria?
Quantas histórias contaria?
O que diria do que sou?

E se aquela poesia
Fosse mais que poesia,
Fosse a melhor semente?
E se meu pranto te regasse?
E se o verso despertasse
O que há anos acabou?

E se eu pudesse ter a chance
De dizer que eu te amo?
E se ouvisse os seus planos?
Se sua falta se acabasse,
Se para mim aparecesse
E eu te contasse como estou?

Ah, se você estivesse viva!
Se essa falta não houvesse,
Se a saudade se findasse...
Minha amiga, cara amiga!
Na distância ainda vive
Seu amor aonde vou.


domingo, 14 de janeiro de 2018

GIOVANNA

Quando te avisto não vejo mais nada,
Não há coisa alguma que tenha importância.
O resto do mundo não tem relevância,
Importa-me apenas te olhar, adorada!

Pois nada no mundo vale mais a pena
Do que admirar tua beleza encantada!
Assim os meus olhos encontram morada
Em teus belos traços, pousada serena.

Em tua figura não vejo um defeito,
Somente beleza me acertando o peito.
Por isso te olho tão apaixonado!

Se um dia disserem que nada é perfeito,
Jamais te mostraram o devido respeito,
Pois és Perfeição em seu pleno estado!

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

SONETO DO REGAR

Um fado me sustenta desde cedo.
Ao projetar os meus primeiros passos
Lancei-me à minha vida de embaraços,
Tracei as ilusões de meu enredo.

E quanto mais fugir tentei penando,
Nas duras penas mais me embaraçava,
Das amarguras não me desgarrava,
Em desventuras fui me transformando.

Tal é a força que mantém o fato
Que hoje a amargura é meu retrato
E ao olhar o quadro não me espanto.

Eu sigo calmo o rumo, conformado.
Registro em cada verso este ditado:
Não há poeta algum se não há pranto.

SONETO FANTASIOSO

O tempo só preserva o que é preciso.
Somente o indispensável permanece.
Às mãos do próprio tempo se floresce
Aquilo que merece ser vivido.

Dos tempos já passados, hoje idos,
Das belas coisas que a vida oferece,
Existe algo em mim que não padece:
O teu carinho que se faz sentido.

E deixo o meu carinho oferecido
Com todo empenho que for permitido
A quem, por seu amor, tanto o merece!

A ti todo o carinho é concedido.
Que possa ser intenso e incontido
Como este sentimento que só cresce.

domingo, 20 de agosto de 2017

DESCONHECIDA

Da vida nada sei.
Sei da tarde que se ia,
Da chuva que caía,
Da noite que chegava.

Da vida nada sei.
Sei da calma que havia,
Do riso que se ria,
Do nada que esperava.

Da vida nada sei.
Sei de gente que partia,
Do dia que seguia,
Mas nunca imaginava

Que a vida que não sei
– E nunca saberia! –,
Em meio ao que havia,
Um beijo anunciava.


sexta-feira, 2 de junho de 2017

REVERSANDO

Por não poder arriscar
Perder a única poesia do dia,
Eu te olhei.
Eu te olhei sem esperanças,
Sem a pretensão das possibilidades,
Eu te olhei como quem escreve sobre si.
Eu te olhei como quem escreve uma poesia.
E no seu olhar, que sutilmente me avistou,
No seu olhar, que discretamente retribuiu,
Não sei se por licença poética da minha mente,
Encontrei a mim mesmo trajando versos.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

CENÁRIO URBANO

Olhar lançado,
Despreocupado
Se atinge a meta.

Do outro lado,
O olhar foi dado
Como uma seta

Rumo a seu alvo.
Do entreolhar
Fez-se um encontro.

Ela me acena.
Mas – uma pena! –
Desci no ponto.


domingo, 5 de março de 2017

POESIA PÓSTUMA IV

Meus últimos dias nem sequer senti.
Não sei ao menos dizer quando começaram.
O fim já se anunciava, sim.
Mas como saber que era o fim?
Era a minha primeira viagem.
Somos todos viajantes de primeira e única viagem!
Mas eu não sei quando foi que embarquei.
Dias antes perdi o gosto na vida,
Talvez meses ou anos antes.
Na verdade, não me lembro quando tive gosto na vida.
Talvez uma ou duas vezes. Desvios.
Talvez fossem apenas a preparação para a morte.
Dizem que antes da morte há o bem-estar.
Mas faz tanto tempo que talvez eu nem tenha percebido
Que morri bem antes, muito antes, do que penso.

Como a vida pode doer em quem já não vive?
A morte não é descanso, é lamento.
A morte é a poesia que se escreve sem rumo,
É literatura de merda para as moscas.
Sinto que sou a única mosca em minha própria poesia.
A morte é também essa mosca insossa.
A morte é esse retrato estúpido e apagado:
A mosca, a merda, o verso que exala,
A sujeira fétida que repele, o nojo,
A ânsia de vômito pelo que já está feito.
A morte! Simplesmente a morte.
E aqui estou eu, figurando o retrato.
Talvez seja este meu retrato mais expressivo.

Eu parti. Não sei dizer quando aconteceu.
Nem posso dizer que foi de repente.
A morte nos ronda dia após dia.
Eu não sei quantas vezes já morri antes,
Mas sei que meus enterros foram silenciosos.
Sem visitas, sem lágrimas, sem vestígios.
Ninguém percebeu.
Quem dera se toda morte fosse despercebida!
Vi a morte de tantas coisas...
E fui eu o próprio coveiro. E doeu.
Talvez por isso eu tenha morrido,
Por ser a tumba das coisas importantes,
Por ser o colecionador de mortes,
Por carregar a morte dentro de mim.
Mas qual é o vivo que não carrega?

Na minha condição, eu sigo.
Já não há espaço para esperanças,
Nem sequer para muitas reclamações.
Tudo está em seu devido lugar:
As ruas, as pessoas, os carros,
Os cachorros, os gatos, os insetos,
As ilusões, as paixões, os amores,
As desesperanças, as decepções,
As poucas árvores, as praças,
As virtudes, os defeitos, as dúvidas,
Os vivos, os que pensam que vivem
E eu.
Era uma vez um reino de mortes.


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

A paz é a desgraça do poeta.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

A PAIXÃO NÃO DECLARADA

Ressoa em mim um gélido suspiro
Ao tempo em que meu coração se abrasa,
Como se a tua figura desse asa
A quem só poderá cair ferido.

E ecoa o canto teu em meu ouvido,
Como se o ouvido meu fosse morada
À tua cantoria emocionada,
E eu pela emoção assim me guio.

Só de lembrar me sobe um arrepio,
Um riso, um lamento, um desvario,
Uma vontade louca irrefreada

De admitir que o peito te sorriu
Desde o primeiro instante em que te viu...
Mas eis uma paixão não declarada!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

AO PEDIDO DE LALI

Quis a vida que você surgisse,
Quis a vida que eu fosse poeta,
Quis a vida me trazer a meta
De versar algo que te servisse.

Porém, como se algo me fugisse,
Como se perdesse do alvo a seta,
Todo verso escrito em linha reta
É como se ao punho decaísse,

Pois talvez tenha sido tolice
Tentar um poema que cumprisse
Te servir da forma mais correta:

O poema em si até existe,
Mas a arte nele não persiste
Se tua atenção não o completa.

domingo, 15 de janeiro de 2017

RECADO A UM MERITOCRATA

“Cidadão de bem” anda revoltado
Com a violência dessa sociedade.
Por essa crescente criminalidade
Anda se sentindo aterrorizado.

Pois que seja dado então este recado:
Por achar que é dono de toda a verdade
E por desprezar nossa realidade,
Queremos te ver bem mais ameaçado!

Somos atacados por sua covardia,
A tão conhecida “meritocracia”,
Coisa que não passa de discurso feito

Para desprezar com ódio as minorias.
Pois então que seja o mérito do dia
Te fazer sofrer pelo teu preconceito!


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

POEMA FEITO DE PEDRA

Carlos me avisou:
O mundo não vale a pena
E sequer vale o próprio mundo.
Eu é que me descuido.
Eu é que ainda penso
Que qualquer coisa que faço
Vale-me o passo que é dado,
Vale-me os passos falsos.
Valha-me, céus! Nada disso!
Eu apenas ando e tropeço.
E invento causas às coisas,
Como todos nós.

Eu sou como quem me fere.
Eu me firo como a outrem.
Eu sou humano.
Para minha infelicidade
Não nasci pedra.
Quisera eu ser pedra!
Ser a pedra desinteressada,
A pedra dura,
A pedra alheia, calma,
A pedra indiferente,
A pedra não notável.

Pedras não concluem poemas.


quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

DE TODOS OS SENTIDOS

Perdi o tato para escrever.
Perdi a métrica em alguma esquina,
Em algum cruzamento dentro de mim
Entre o passado e o agora.
Perdi o tato após ter perdido o paladar.
Há muito tempo perdi o paladar!
Não sinto o gosto das coisas.
Raras vezes algum sabor se pronuncia.
E se dissolve.
Perdi o olfato. Não sinto as flores,
Os perfumes do dia-a-dia.
Serei eu ou não há flores?
Serei eu ou não há perfumes?
E cadê os sons, céus, os sons?!
A musicalidade, o ritmo…
Perdi a audição no silêncio do luto.
Eu perdi minhas poesias para o passado.
Mas não perdi a visão.
Não perdi o olhar que captura novos versos,
O olhar que expressa,
O olhar que enxerga além do que eu queria
E vê além, bem além, dos limites.
O olhar é crítico. O olhar é vivo.
O olhar tem tato. Derrama-se em tudo.
O olhar sente o gosto do que a alma vê.
O olhar escuta a alma e a pronuncia.
O olhar tem voz!
Perdi os sentidos no que se passou,
Mas Quintana me avisou
Que meus olhos passarinhos.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

UM DIA, AO ACASO

Um dia, ao acaso,
Encontrar-nos-emos.
E teremos receio do que vem depois.
E o depois virá
E haverá o abraço.
E depois do abraço,
O corpo trêmulo.
E depois do tremor,
A água nos olhos.
E depois disso,
O desejo de sempre.
Mais uma vez.
E, depois, a despedida.
E a saudade.
E tudo será sempre assim.
Um dia, como hoje,
Ficarei ausente,
Ficarei distante,
Ficarei louco,
Gritarei por ti
Aqui dentro.
E te amarei
Como eu amo,
Como sempre amei,
Como sempre amarei.
Um dia, ao acaso,
Quem sabe,
Nós dois.


segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Olá, leitorxs!

Estou postando apenas para registrar e compartilhar minha felicidade por ter me classificado em 1º lugar no "Concurso de Poesias Júlio de Queiroz", promovido pelo Grupo Poetas Livres!

A poesia classificada foi "Poesia Gritada às Paredes", que pode ser lida no link abaixo:

http://oourodamiseria.blogspot.com.br/2015/03/poesia-gritada-as-paredes.html

Beijos para todxs!

Paz e Anarquia!

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

DO RESPEITO

Respeitar minhas limitações,
Minhas fraquezas, minha falta de coragem,
Minha estupidez e meu azar.
Respeitar, enfim, meus anos de poeta.
Eis o fardo que carrego!
Minhas vontades me traem,
Não me incentivam, são tolas
E tão covardes quanto eu!
Minhas vontades me deixaram vazio.
Minhas vontades regaram ilusões.
Deram frutos. Comi-os.
Estupidamente comi-os.
Eu cultivo a amargura de uma vida inteira.
Porém, respeito-me.

Respeito-me ainda que eu me odeie.
Aprendi a conviver com o que não se cura.
E nada cura. São apenas novas feridas,
Mais ou menos profundas, mas feridas.
Sou uma ferida aberta.
Respeito-me pelo que sei, não pelo que sou.
Respeito-me pelo que a vida é.
E a vida é cheia de falhas.
A vida é uma grande falha generalizada.
Em meio às falhas, eis o fraco,
O covarde, o estúpido, o poeta.
Aprendi a respeitar meus desastres.
Respeitar-me é saber que tudo é nada.


sexta-feira, 9 de setembro de 2016

POESIA PÓSTUMA III

Mais uma vez na cova escura,
Cavando mais fundo com os dentes,
Tentando engolir o que resta
Do que nunca, em tempo algum, foi.
A cova. A casa. Aquieto.
Permito-me o caos do enterro.
A hora inevitável voltou.
Sou um ponteiro para cada morte.
Agora é nova hora de morrer,
De matar em mim o que vive,
O que vive mais do que eu.
Eu estou morto. Novamente.
E que morra tudo o que trouxe comigo
Nesta tumba, neste vão,
Trincheira de guerra perdida,
Neste lar em destroços,
Neste escombro macio,
Neste canto só meu, todo meu!
A vida me testa,
Eu detesto
E atesto meu testamento:
Não busque flores nesta cova.
A vida não me foi gentil.
Eu não deixo legado,
Não deixo esperanças,
Eu deixo apenas a impressão
De que tudo passa.
Tanto já passou enquanto vivi!
E passou para não voltar.
Nem sempre voltei. Passei.
Lembranças. Apenas lembranças.
Como tudo. Tudo é isso. E isso é tudo.
Agora sou lembrança, até que ela falhe.
No mais, sou eu nesta cova,
Morto. E mais vivo que outrora.


sexta-feira, 2 de setembro de 2016

A VÉSPERA ABSTRATA

Hoje é a véspera de um dia cheio
De falsas superações e tropeços,
De ilusões acumuladas,
A véspera do recorrente.
Hoje é a véspera do descontentamento,
A véspera de um dia como hoje,
A véspera repetitiva, tola,
A véspera de mais uma morte minha.
Hoje é a véspera do riso vão,
Das vontades reprimidas,
Dos desejos que se debatem
Na imitação dos desejos de ontem
E de hoje. Hoje: a véspera amargurada,
A véspera da amargura,
A véspera que procede um dia amargo,
A véspera. Apenas.
E de vésperas estúpidas vivemos,
Como se tudo pudesse mudar,
Pois hoje é a véspera de mudança alguma,
Amanhã será a véspera do “tudo igual”.
Ontem foi véspera – de quê mesmo? –
E ontem nada mudou.
Hoje nada muda.
Amanhã nada mudará.
E viveremos uma eterna véspera abstrata.