Respeite a arte! Ao reproduzir em outros lugares a obra de algum artista, cite o autor. Todas as poesias aqui presentes foram escritas por Mao Punk.

Visite também meu blog de textos: RESQUÍCIOS DEPRESSIVOS, SUJOS E NOJENTOS .
Textos que expõem a fragilidade e indecência humanas de forma irônica, metafórica e sem embelezamentos.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

A CRIAÇÃO DO SAGRADO, PRIMEIRO ENSAIO

I

Toda vontade que tenho é de mim mesmo.
Não existe outra vontade que não seja de mim.
Não há no mundo outra vontade que não seja essa:
A vontade de si próprio, do encontro consigo.
Toda paixão que nos aflora é por nós mesmos,
Pois nas semelhanças com o próximo
Findamos por lhes exaltar nossas virtudes,
E as virtudes que nos faltam,
Essas virtudes abundantes no alheio,
Queremos tomá-las e fazê-las nossas.
É a criação do sagrado, dos deuses e deusas,
Dos altares, dos preitos, das sentenças.
Porém o andor tem nossos próprios pés.
A complementaridade é placebo:
Procuramos para nós o que está no outro,
Pois toda vontade que temos é de nós mesmos.


II

Tudo que nos é caro é nosso,
Tudo que adoramos nos agrada,
Tudo que nos agrada é como nós,
Porque queremos a nós mesmos.
Quando me odeio, não me tenho.
Quando me odeio, estou longe de mim.
Quando me odeio, adoro aquilo que me reafirma,
Adoro as cores que lembram a mim,
Adoro os sabores que lembram a mim,
Adoro as pessoas que lembram a mim.
Eu me anulo.
Eu me anulo para adorar no alheio o que possuo,
Mas não enxergo.
Toda vontade que tenho é de mim mesmo.


III

Toda frustração vem da distância,
Da distância entre o querer e o possuir,
Pois quando nos atiça o alheio,
Distanciamo-nos de nós,
Distanciamo-nos buscando no outro o que já temos
Ou o que queremos cultivar em nós.
Mas regar jardins vizinhos não floresce teu quintal.
Toda vontade que tens é de ti mesmo.

terça-feira, 7 de junho de 2016

REVERBERAÇÃO

Já se foi.
Reconhecer que o fim não volta,
Que o que ainda reverbera na mente
E reverbera no peito, não existe mais.
É só a extensão de um som que já se acabou,
De um sentir que já se findou,
É só a luz no céu de uma estrela que já se apagou.

Reverbera.
Ainda sinto.
Mas já se foi,
No primeiro verso da poesia.

domingo, 29 de maio de 2016

POESIA PÓSTUMA II

Perdoem-me o silêncio.
Não o silêncio de agora,
Já que agora não posso ser mais que o silêncio.
Eu peço perdão pelo silêncio de outrora,
Aquele mais estrondoso que o choro à minha volta.
Eu sei que não dei atenção.
A tensão que me foi dada trancou minha boca,
Calou minha voz, emudeci.
Não pude dizer que não era feliz.
Infeliz também não fui, mas amargurado.
Perdoem-me a ausência em meu lar
Quando em meu lar eu estava presente.
Talvez fui mais ausente do lar em mim mesmo.
Eis que o silêncio era o caminho da permanência.
Eu quis permanecer em mim.
Falhei ao notar que eu não me aturava.
E permanecer incômodo é ausentar-se de tudo.
Mas eu tentei.
Quem tentou entender meu silêncio?
Antes julgaram. Tenho defeitos fáceis.
Porém, os dedos antes em riste,
Aqueles que me flechavam qual penitência,
Hoje secam lágrimas vãs.
É vão penar por quem não vive.
É vão viver dos mesmos erros.
E já não vivo para ver mudanças.
Talvez esperei mais mudanças do que era possível,
Quem sabe esperavam de mim mais do que eu fui
Ou ainda tenham me enxergado maior do que eu era,
Quiçá mais inútil do que eu me sentia
Ou menos imprestável do que eu me enxerguei.
O fato é que todo fato se enterra
E toda dúvida que surgir já surgirá morta,
Morta e enterrada comigo.  Nada vive.
Nada além de tudo que não vivi,
Nada além do que nunca tive.
E aquilo que um dia tive não vem comigo,
Vive à parte. E eu parto.
Parti.


domingo, 17 de abril de 2016

ACEITAÇÃO

Eu me contentarei com meu melhor.
E meu melhor é ser um derrotado.
Minha virtude é ausência de vaidade,
E embora eu queira aquilo que não tenho,
Não tenho a pretensão de alcançá-lo.
Eu sei que jamais alcançarei.

Então eu emudeço e observo
A impotência em ser o que eu sou.
Encaro-me nos olhos, quero chorar.
Quero arrancar de minha frente
Este ser que incomoda os olhos,
Incomoda o respirar, incomoda o viver.
Mas nunca arranco.

Eu me contento em não me aceitar.
A aceitação é hipócrita.
Eu me contento em ser verdadeiro.
E a verdade está estampada no espelho,
Está esticada no colchão quando acordo
E está farta de tudo quando me deito.
A verdade está isolada, desolada, incomodada,
Amargurada, a verdade que sou!

Todas as belezas renunciaram meus cuidados.
Eu renunciei a ilusão. A beleza não existe.
Eu tenho uma bagagem cheia de verdades,
Cheia de vácuos espaçosos e pesados,
Cheia de absoluto pesar. Cheia de mim.
Eu não posso ter além do que me cabe.
E em mim só cabe eu e o vazio.
Eu me contentarei com o que me cabe.

Não há canções que falem sobre mim.
Algumas dizem sobre coisas que sinto,
E sentir nem sempre é viver.
As canções que sinto não são sobre mim.
Nada é sobre mim neste mundo triste,
Apenas meus versos, esses rejeitados!
E eu me contentarei com meus versos.

E esse é o melhor que eu consigo:
Estar a esmo e aceitar o fato.
Não quero discutir com meu destino,
Destino não existe, é antes sorte.
E contra a sorte que jamais eu tive
Não há de se ganhar jamais a causa.
Por fim, eu me contento em ser poeta.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

ERALDO

Difícil entrar no ônibus lotado
Já fatigado da amargura forte,
Lembrar das coisas que deixou no Norte
Que agora fazem parte do passado

E ver uma cidade castigada,
Clausura do trabalho ao domicílio.
As mãos nunca estendidas como auxílio,
Pois todas já estão muito ocupadas

Dispondo as duras pedras no caminho.
Eraldo imaginou estar sozinho
E quis desabafar sua triste sorte,

Mas ninguém dá ouvidos na cidade.
Lembrou de sua terra e deu saudade:
"Que falta faz quebrar coco no Norte!"


domingo, 27 de março de 2016

VERSOS DE SAUDADES

Eu tenho saudades do que nunca tive,
Pois quase nada tive para que um dia eu pudesse perder.
Eu haveria de saber o que é saudade de alguma forma.
Todo mundo aprende em algum momento.
E foi assim que aprendi: perdendo antes de ter.

A maior parte do tempo eu sinto saudades
Do beijo que nunca dei, das trocas que nunca aconteceram,
Das lembranças que nunca existiram além da minha imaginação.
Eu tenho saudades de quando eu estava iludido.

Tenho saudades de cada momento passageiro que em mim nunca passou.
Eu tenho saudades do que sempre quis.
Eu tenho saudades do que nunca será.
E tenho saudades de quando não havia saudades.

Eu tenho saudades de versos que nunca foram escritos,
De perfumes que nunca senti, de camas em que nunca deitei,
De despedidas que nunca tive seguidas de “até mais”.
Eu tenho saudades de deitar com o corpo contente,
Com a mente tranquila, com a certeza de que há carinho.
Eu tenho saudades do que nunca tive.

Eu tenho saudades de versos recíprocos.
Eu nem sequer sei o que são versos recíprocos!
Eu tenho saudades de poesias vividas,
Vividas além dos desejos, além das impossibilidades,
Além das vontades contidas, além dos muros,
Além dos gestos inseguros, além das incertezas...

Eu tenho saudades dos sentimentos sem freios.
Apenas eu tenho sentimentos sem freios.
Eu tenho saudades dos meus sentimentos abraçados,
Abraçados inteiramente, sem impedimentos.
Eu tenho saudades de mundos mais fartos,
De ruas mais calmas, de dias mais livres,
De frio na barriga, de calor na alma.

Hoje sou morno. Não posso ser nada além disso.
E o tempo se encarrega de esfriar o que for.
Dentro de mim eu sou morno.
Mas quem confiaria? Quem saberia?
Eu sou amargurado e nunca acreditaram.

E fora a saudade, fora o que nunca tive,
Que motivos tenho para ser triste?
Sou amargurado, sim. Mas triste só quando sofro.
E claro que sofro. Mas estou bem.
Hoje é mais um dia. Amanhã outro.
A saudade é eterna, a amargura também.
Viver é passageiro. Viver é tão rápido!
E não quero ter saudades da vida. 




domingo, 13 de março de 2016

CAMILE E TAINÁ

A noite, quando chega, brada ao vento:
“Cuidado, pois reservo mil perigos”
E sem dar atenção a tal aviso,
Eu vi naquela noite o atrevimento

De duas ébrias moças pelas ruas
Que na inocência de sua pouca idade
Confiam num poeta da cidade
Que se viu preocupado com as duas.

Camile estava menos alterada,
Contava como odeia a família
Enquanto Tainá se pôs deitada

Queixando-se do efeito da bebida,
Com sua voz um pouco enfraquecida,
Após ter vomitado na calçada.


domingo, 6 de março de 2016

POESIA PÓSTUMA I

Não vivi feliz,
Mas fui feliz sempre que pude,
Também fui triste além do que quis
E fui sábio por força do acaso.
Cheguei além do que eu esperava,
Quase nunca onde eu queria,
Fiz mais coisas do que julguei,
Vivi bem mais do que eu soube
E morri mais vezes do que pensei.
Não deixo nada além de versos,
Certamente um punhado de saudade
E possivelmente algum tanto de mágoa.
Também levo comigo mais do que essas flores,
Essas flores de agora tão mais fartas
Que as poucas que recordo ganhar em vida.
Eu levo comigo as marcas que nunca sumiram,
Mas também os momentos de risos abertos.
Eu sou mais que um corpo gelado à mesa,
Eu sou a minha antologia completa e finalizada,
Eu sou o ciclo fechado do que nunca foi planejado,
Sou e fui bem mais do que enxergam.
Ninguém enxerga nada.
Eu mesmo não me via como eu era
E hoje esses olhos farão a cerimônia na terra.
Mas quem disse que é preciso ter olhos?
Para ver a essência é preciso sofrer.
O sofrimento é a visão dos prudentes.
Fui prudente o quanto pude,
Pude bem mais do que eu gostaria
E também menos do que me preparei.
Eu fui embora, mas nem por isso
Fui aquela pessoa virtuosa que dirão por aí.
Fui virtuoso, sim! Não em tudo.
Alguns relatos são ressentimentos guardados,
Outros são exageros, outros pena,
Alguns compaixão.
Eu fui embora sem perdoar muitos erros,
Não relevei atitudes dolorosas
E até o último suspirar carreguei mágoas,
Mas também carreguei amor.
E tudo que não pude perdoar,
Tudo que não quis relevar,
Toda minha aversão a quem machuca,
Serão só detalhes para quem fica,
Pois deixo de herança o amor.
Herdem-me todos e dividam!
E festejem! Festejem a partida!
Festejem com poesias, música, arte,
A quem quiser, que bebam, que façam orgias!
Mas festejem a partida!
Aqui jaz a amargura que deixou o amor viver.



sábado, 20 de fevereiro de 2016

CARTÃO POSTAL

O tempo passa, quase nada fica,
As pessoas ainda se esbarram
Para o desencontro de amanhã.
Tudo ainda fede nas ruas do centro
E a Sé só é bonita no cartão postal.
Se existisse outra sorte,
Talvez ninguém soubesse lidar.
Talvez essa sorte exista
E ninguém nunca soube.

Nenhum trevo de quatro folhas enfeitou meu berço,
Nem sequer meu jardim,
Nem sequer soube a vida que há trevos.
Atrevo-me a saber que não há.
E, no entanto,

As pessoas ainda se esbarram
Para o desencontro de amanhã.
Felizes demais para notarem que são tristes.
Felizes com as migalhas que dividem
Com os pombos famintos da Praça da Sé.
Há muito mais verdade nos pombos.


domingo, 10 de janeiro de 2016

A QUEDA INEVITÁVEL

Deixe-se cair
Se for para ir além.
Se a dor está em tudo,
Que mal tem?

Não existe céu
Que não desabe um dia,
Nem sequer um poço
Onde não caiba poesia.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

SONETO DE NASCIMENTO

Este poema não é sobre esperança,
Pois a esperança há tempos faleceu.
Estive em seu leito e agora descansa.  
Quão cruel a vida, o coveiro fui eu!

E se o pranto cai e umedece o chão
Fazendo brotar da terra alguma flor,
O mesmo não serve qual consolação
Para o que findou e àquilo que inda for,

Pois tudo que morre permanece morto
E desconsidera o que nos molha o rosto.
Mas quis o poema celebrar o dia!

Se minha esperança é morta e enterrada,
Com o amanhecer nasce uma alvorada
E junto à alvorada nasce a poesia!


domingo, 20 de dezembro de 2015

POESIA DE GUERRA E PAZ

Que se pondere quando a paz,
Que se pondere quando a guerra.
Quem fere a calma a culpa traz,
Quem dá o rosto ao bruto erra.

Quem nada faz frente ao que jaz
Também padece ao ser passivo;
Personifica o capataz
Quem sem razão é agressivo.

Que a paz não seja declarada
Enquanto nos faltar prudência
E a guerra nunca anunciada
Ao nos faltar a consciência,

Pois a batalha que é travada
Em despreparo e inocência
É como a paz que é ofertada
A quem por nós não tem clemência.



sábado, 28 de novembro de 2015

FORMA E FORMAÇÃO

Eu nasci pra ser poeta!
Profissão não é minha meta,
É apenas profissão.

Se terei ou não canudo,
Isso não define tudo.
Sou poeta em formação!


quarta-feira, 4 de novembro de 2015

O DIA DO DESAPEGO

No dia do desapego,
Nem rastro que os olhos deixam,
Nem pesos que o peito leva,
Nem mesmo um sorriso bobo
Que teima em aparecer,
Nem mesmo um suspiro avulso,
Nem dúvidas sobre os porquês,
Sequer as memórias boas
Dos tempos de ilusões,
Não haverá rádio alguma
Que possa fazer chorar,
Nem músicas selecionadas
Que falem sobre o que foi,
As ruas e seus caminhos
Serão só caminhos novos
E aquilo que se perdera
Jamais poderá voltar.
No dia do desapego,
Boa sorte com o que sentir.

domingo, 18 de outubro de 2015

DO VOO QUE É POSSÍVEL

Não ando bem,
Porque eu voo.
Não voo bem,
Porque eu finjo.
Não finjo bem,
Porque eu caio.
Não caio bem,
Porque resisto.

domingo, 13 de setembro de 2015

NO TEMPO DE SER EU

Eu, no tempo de ser eu, não sei quem fui.
Não sei bem se fui quem eu era ou não.
Eu sei que fui quem amei. Tanto amor!
Eu sei que fui quem me fez ser o que sou.
E o que sou nos tempos de ser eu?

Quem fui eu nos tempos em que estive ausente de mim?
Onde estive que não acho pistas, não me acho?
Em frente ao espelho não sei se me vejo,
Não sei se vejo somente o que se passou,
Não sei se também passei e fiquei para trás...

Decerto o tempo deixou-me ao passado
E da memória de muitas pessoas que já não me lembro quem são
Fui apagado. Também as apaguei.
E quem não apaguei da memória,
Quem não apaguei de dentro de mim,
De dentro desse ser sem ser ou sem saber o que se é,
Talvez esteja a me apagar. De dentro para fora.

Quem sou eu quando estou sozinho?
Quem sou eu quando as paixões me jogam à solidão de mim?
Quem sou-lidão?

E aqueles que não me esqueceram,
O que pensam que sou? O quanto sou do que pensam?
Eu, no tempo de ser eu, não sei quem fui.
Não sei quem sou. Não sei.
Não sei quem sou nos outros.
Não sei quanto deste ainda sou em mim mesmo.
Não sei se fui me deixando por onde passei
E já não se passa nada mais em mim.

E o que não passa permanece.
E o que permanece se nem sei o que restou?
E se não restou?
E se não restou, resta ser novo.
Resta ser quem não posso saber. Ainda.
Eu, no tempo de ser eu, atrevo-me.


sábado, 22 de agosto de 2015

SONETO MAL FEITO

Tudo entristeceu, o chão já não existe.
Cada riso agora encontra-se enterrado
Dentro do infinito ser atormentado
Que jamais pudera se sentir mais triste.

Foge-me o poema outrora esperançoso,
Falta-me o conforto antes conquistado,
Sobra-me um vazio em tudo confirmado
E um peito cheio de cruel desgosto.

Tenho ainda a vida a me trazer mais pranto,
Cada novo dia, um novo desencanto,
Como se acordasse sempre mais sofrido.

Perdido me encontro com meu sofrimento.
Mas que ironia traz meu desalento!
Só desta paixão não me sinto perdido.

domingo, 16 de agosto de 2015

DECISÃO

A vida:
- Decida!
O lugar:
- Aqui!
A hora:
- Agora!

O beijo:
- Entendi...

terça-feira, 28 de julho de 2015

SONETO DA FORÇA MAIOR

É infinita a força que se espera
De quem a vida fora desventura,
A quem os anos foram qual tortura
E os desejos não mais que quimera.

Quão grandioso aquele que definha
Às malogradas sucessões do acaso,
Mas que, capaz de dar um novo passo,
Consegue ultrapassar o fim da linha;

Que à amargura que nunca se aquieta
Pôde viver e tornar-se poeta
No sofrimento de sua triste sorte;

E que suporta o mal da agonia
E o desprazer de tê-la dia a dia.
Não há no mundo quem seja mais forte!

quinta-feira, 9 de julho de 2015

SONETO DO ÁPICE

Conforme o tempo passa, a mágoa fica.
A vida já é desesperançosa.
A amargura, a mim tão carinhosa,
Ao me beijar a alma me suplica

Que não a deixe nunca nesta vida.
E eu, fiel, jamais me esquivo dela.
Assim, todo penar em mim revela:
A amargura em mim é bem sentida!

E somos muito mais do que um beijo
Dos lábios das mulheres que desejo,
Pois nossa relação nunca termina.

Sou eu entregue a ela como amante!
Não há quem nos separe um só instante,
Pois temos um ao outro como sina.

terça-feira, 16 de junho de 2015

SONETO DO MELHOR SORRISO

O teu melhor sorriso guarda bem.
Ninguém além de ti tanto o merece.
E caso seja algo que se esquece,
Melhor que esqueças de sorrir também!

O riso necessita da alma em si,
De um peito a palpitar o sentimento.
E quem melhor terá o entendimento
De um riso dado se não quem o ri?

Portanto, ria àquele que puder,
Porém, não desperdices teu sorriso.
Que saibas perceber a quem sorrir.

E nunca dês o riso a um qualquer,
Que não te rias contra teu juízo,
E que o sorriso esteja a teu servir.

PONTOS DE ESTAR

Vi um sabiá 
cagar no parque.
Não sei se o parque ficou cagado
Ou se o cocô emparquezado.
Talvez eu tenha ficado sabiá.



O PESO DA GENTILEZA

                                       "Teus ombros suportam o mundo
                                        e ele não pesa mais que a mão de uma criança"

                                                                                                  Drummond


O ar do mundo pesa mais do que o mundo.
E menos do que o mundo pesa a gentileza.
Talvez deva ser assim mesmo.
É que a gentileza constitui-se de gestos leves.
Como pode a leveza parecer ter mais peso?
Mas não é peso que nos pressiona,
Nem tampouco peso morto.
É mais como se fosse o peso da coberta
Em dias frios, de vento forte.
Faltam-nos cobertas para dias frios!
Mas quando vejo alguém com um livro de poesias,
Penso que o mundo ainda tem jeito.


quinta-feira, 14 de maio de 2015

PORÉM NÃO RI

Voltou do nada.
Fez do que sinto
Uma piada.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Sem título. 08/05/2015

Saudade muda,
Saudade vaga:

Grito no vácuo
De tua ausência.   
O som não propaga!

segunda-feira, 4 de maio de 2015

SONETO PARA DIAS ÁRDUOS

Os dias não são fáceis, nunca foram!
São várias as batalhas e empecilhos,
São muitos os espinhos no caminho
E muitas as derrotas que se somam.

Bem sei o quanto dói quando sorrimos
E nós desconfiamos do que temos
E nem sequer momentos tão amenos
Nos dão a segurança em que sentimos.

Eu penso sobre o peso deste fardo.
Talvez não me seria tão pesado
Se houvesse o beijo teu que me afaga.

Os dias são difíceis e mais árduos
Quando a saudade em mim fala mais alto
E o peso da saudade é o que me esmaga.


domingo, 3 de maio de 2015

IMPORTÂNCIA QUALQUER

Devolva-me o sono
Ou qualquer coisa que possa.
Devolva-me o tempo
Em que fico na fossa.
Devolva-me o riso,
A razão, qualquer bosta,
Pois dói querer tanto
A quem não me gosta.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

DOIS EM UM

É tanto sentimento!
Temo o que virá depois.
Parti sentindo tanto
Que o que sinto dá pra dois.

Mas sou apenas um!
Assim suspiro: “Quem me dera
Se um dia ela surgisse
E exigisse a parte dela!”


quarta-feira, 29 de abril de 2015

ERICA

Engulo a seco o que me come vivo.
Não há motivo para o que me invade.
Há tanta mágoa para haver saudade!
Há tanta vida para eu ser cativo!

Quando decido não ser impulsivo
E refletir no que virá mais tarde,
Por não fazer tenho tranquilidade,
Mas por pensar tenho meu prejuízo,

Pois sendo o peito sempre tão esquivo
Do que a razão tem como regozijo,
Ouvir razão é quase crueldade:

O peito tanto aperta, compulsivo,
Que a razão perde seu próprio siso
E nem o verso traz serenidade.



sexta-feira, 24 de abril de 2015

CARTA AOS AMIGOS MAIS PRÓXIMOS

Amigos mais próximos
Que tanto amor me dão
E que tanto me fizeram aprender,
Que tanto me fizeram crescer,
Que tanto me mostraram que a vida,
Essa vida torta e cheia de dores,
Tem seu lado puro, seu lado bom,
Seu lado repleto de sorrisos verdadeiros,

Amigos mais próximos
Que tanto prezo e amo,
Parto agora para outro rumo.
Sim, é uma despedida,
Mas não um adeus!
Eu preciso de espaço para mim.
Eu preciso sentir que sou eu,
Preciso de mim sem vocês,
Preciso saber que existo também
Sem que alguém me sustente.
Eu preciso me sustentar
Pelo menos por um tempo,
Pelo menos por algum momento.
Eu preciso sentir que basto,
Eu preciso sentir que tenho a mim.

Amigos mais próximos
Que construíram fortalezas em mim,
Eu baixei a guarda e hoje sofro.
Esses muros já não me sustentam,
Tudo desabou. Fui eu quem baixou a guarda.
Obrigado pela construção,
Pelas desconstruções também,
Que só assim refiz ideias antiquadas.
Mas minhas fortalezas hoje são ruínas
E esse lugar arruinado já não me serve.
Eu preciso de novos ares,
Habitar espaços nunca habitados,
Espaços em mim, espaços na vida,
Espaços na minha estrada incerta.
Eu preciso seguir sozinho
E encontrar novos encontros,
Encontrar novos medos, novos impulsos,
Novas sensações que já não sinto mais...

Amigos mais próximos,
Serão sempre próximos, ainda que eu,
Nessa nova estrada, esteja distante.
E não sei por quanto tempo.
Não sei ao menos dizer se o tempo virá,
Mas é o tempo que eu preciso.
É o meu tempo, minha vida, minha decisão.
Se sentirem falta de mim,
Não procurem me encontrar frente a frente,
Não procurem me encontrar em diálogos,
Procurem-me nos versos,
Nos versos de cada coisa da vida,
Nas boas lembranças de cada momento,
Nos aprendizados que pude deixar,
Nas lições que puderem me ensinar,
Nos momentos em que eu não estiver presente,
Mas que estarei versando, de longe.


Hoje sou apenas meu próprio verso.
A poesia é tão livre, amigos, tão livre!
Não prendam poemas em livros fechados,
Não deixem que o verso não vá mais além.
Serei eterna obra a se concretizar.
Eu serei verso em outros olhares,
Em outros livros, em outros abraços.
Eu serei o que preciso ser, se assim for.

Amigos mais próximos, eu voltarei.